Capítulo 106 — Página Virada
Emma Anderson
Não tinha como apagar o meu passado. Mas, depois da minha síncope e da minha confissão ao Damien, eu tinha aprendido a viver com ele. Ou foi o que eu pensei, até ouvi-lo dizer:
— Sim. Izabel. A mãe da Clara.
Aquilo me atingiu a um nível que não pensei ser possível. E se ela me culpasse? Se não gostasse de mim? Se achasse que tirei a vida da Clara para tomar o seu lugar? Minha mente explodiu em perguntas, e meu corpo reagiu a cada uma delas.
Mas então veio a outra notícia.
— Emma, a culpa do acidente nunca foi sua. Não foi seu cansaço, nem seu desespero pelo seu pai. Não foi você, amor, quem causou o acidente. Foi a Clara. A Clara foi a culpada.
As palavras do Damien ainda ecoavam na minha mente. Eu as ouvia repetidas vezes, mas simplesmente não as absorvia. Não fui eu? Nunca fui eu?
— Amor… — Damien me chamou, ainda com as mãos no meu rosto, secando as lágrimas que eu simplesmente não conseguia controlar.
— Não fui eu? — Minha voz saiu tão baixa que nem sei como ele ouviu.
Damien colou a testa na minha e respondeu:
— Não, querida. Não foi você. Foi ela. Foi a Clara quem cruzou o sinal e bateu direto no seu carro.
— Como é possível? Eu pensei… — Me afastei dele. — Eu sempre me culpei… — Uma dor aguda bateu no meu peito. Abracei minha cintura de novo, tentando controlar os tremores que surgiram.
— Emma… — Damien me chamou, mas não olhei para ele.
Eu me culpei. Eu sofri. Ele me fez sofrer. E nunca foi minha culpa. As lágrimas se tornaram um choro intenso. Meus soluços ecoavam pelo ambiente. Senti os braços do Damien ao meu redor, me puxando para ele. Segurei sua camisa com força, enterrei o rosto em seu peito e, então, desabei.
— Não chora, amor… — Damien deu um beijo no topo da minha cabeça.
— Não consigo — respondi, entre o choro. — Eu carreguei essa culpa, Damien, por tanto tempo… E agora, saber que ela nunca foi minha…
— Eu sei — ele disse, me beijando novamente. — E, se eu pudesse, eu arrancaria toda a dor que você está sentindo agora. — Damien apertou ainda mais os braços ao meu redor, como se quisesse nos fundir.
Por alguns minutos, eu me permiti chorar. Eu não sabia bem de onde vinham aquelas lágrimas. Se eram de tristeza, de raiva, ou se era apenas alívio. Um alívio egoísta de saber que eu não tinha matado ninguém.
Mas, no meio desse alívio, veio a imagem da Clara naquele dia. Suas palavras. Seu sorriso lindo e triste ao mesmo tempo. Ela sabia. Sabia o que tinha causado. E tinha aceitado o seu fim.
— Amor… — Damien me chamou, se afastando só o suficiente para me encarar. — Fala comigo… — ele pediu.
— Não tem nada para falar — respondi, com a voz num fio.
— Tem sim. Você sabe que tem — ele rebateu, secando minhas lágrimas. — Não guarda nada para você. Não agora. Não quando você me tem aqui.
Me separei dele de vez, afastando suas mãos de mim.
— O que acha que eu teria para falar? — perguntei, e dessa vez minha voz subiu um tom.
— Sobre o que está sentindo. Se é raiva, tristeza. Eu não sei, só quero ouvir sobre o que está sentindo. — Mantive meus olhos nos dele antes de responder:
— Eu também não sei o que estou sentindo, Damien. Talvez o que eu sinta seja só alívio.
— Ótimo — ele falou, firme. — Alívio é ótimo. É a certeza de que você não teve culpa.
Eu não sei se foram as palavras dele ou a forma como ele disse, mas algo se quebrou dentro de mim.
— Você está feliz por não ser eu a culpada?
— Claro que estou. Eu posso ter sido um babaca naquele dia, mas eu realmente sentia a sua dor, e eu só queria poder aliviá-la.
— Então, para você, está tudo bem ter sido a Clara? Você não tem por ela o sentimento que teve por mim no dia em que descobriu que era eu no volante?
Minha pergunta o pegou de surpresa. Na verdade, pegou até mesmo a mim. Tudo que eu tinha que fazer era só ficar aliviada e pronto. Vida que segue. Mas eu não consegui.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar