Capítulo 108 — Por tudo que tivemos
Ambrose Blair
Houve um tempo em que eu achei que passaria o resto dos meus dias assistindo à felicidade dos meus irmãos de camarote, anestesiado pelo meu próprio cinismo. O celibato não era apenas uma escolha física; era um escudo. Uma fortaleza que construí ao redor do meu peito para garantir que nenhuma mulher jamais me fizesse sentir pequeno ou rejeitado novamente. Eu achava que o amor era um jogo com cartas marcadas, onde caras como eu sempre terminavam com as mãos vazias.
Mas aí veio a Fernanda.
Pensar nela agora, enquanto observava o elevador privativo do apartamento de Dom fechar, trazia uma sensação inédita de leveza. Pela primeira vez em anos, eu não sentia medo. O peso daquela barreira invisível tinha sumido. Com a Fer, tudo era real, simples e limpo. Não existia a dinâmica de sub e Dom que tanto ditava as regras do nosso mundo na fraternidade; existia apenas um homem que queria cuidar e uma mulher que, aos poucos, estava permitindo ser cuidada. Eu estava feliz. Uma felicidade genuína, daquelas que fazem o cara acordar sorrindo sem motivo.
Olhei de lado e não pude deixar de soltar um riso abafado ao observar a postura dos meus amigos. Tristan, Dominic e Damien pareciam três leões enjaulados, resmungando pelos cantos enquanto assistiam às suas mulheres saírem para um shopping. O ciúme daqueles marmanjos e as inseguranças que eles tentavam disfarçar sob a pose de homens implacáveis eram a minha maior fonte de entretenimento. Eles eram absurdamente possessivos, e ver os três agindo como se o mundo fosse acabar só porque as meninas iam passar uma noite sozinhas era hilário.
Meu celular começou a vibrar no bolso da calça. Tirei o aparelho, ainda com o sorriso de deboche estampado no rosto, pronto para zoar a paranoia deles mais um pouco. Olhei para os três e balancei a cabeça.
— Vocês três precisam se tratar, Deus me livre — falei, a voz carregada de ironia.
Mas o riso morreu na minha garganta no exato milésimo de segundo em que meus olhos focaram na tela.
O nome brilhando no visor parecia uma miragem de mau gosto. Senti meu sangue esfriar por um instante, o maxilar travando automaticamente.
— Ozzie? — a voz de Damien cortou o silêncio da sala, me chamando.
Eu não respondi. Não conseguia. Meus olhos ficaram completamente presos àquela maldita tela, as engrenagens da minha mente girando enquanto o aparelho continuava a tremer na minha mão. O silêncio repentino e a mudança drástica na minha expressão chamaram a atenção de todos. Sem dizer uma palavra, virei o aparelho na direção deles, expondo o nome de quem ligava.
— Só pode ser brincadeira — Tristan disse, a voz subindo um tom, o cenho franzido em pura incredulidade.
— Abriram a porra da porta do inferno! — Dom resmungou, batendo o copo de bebida na mesa com força.
Damien deu um passo à frente, parando bem diante de mim. Seus olhos azuis, frios e calculistas, cravaram-se nos meus com uma autoridade silenciosa. Ele sustentou o olhar por dois segundos antes de dar a ordem:
— Atende.
Soltei um longo suspiro, tentando empurrar o nó que havia se formado na minha garganta. Assenti com a cabeça, deslizei o dedo pela tela e levei o aparelho ao ouvido.
— Katy — pronunciei o nome dela, e a palavra pareceu ter o peso de uma bigorna.
Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Eu conseguia ouvir o som da respiração dela, rápida e superficial, mas por alguns momentos ela não disse absolutamente nada. A linha parecia fantasmagórica. A irritação começou a morder a minha paciência.
— Se não vai responder, vou desligar — insisti, a voz fria como gelo.

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