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O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar romance Capítulo 115

Capítulo 115 — Cicatrizes Expostas

Fernanda Garcia

O silêncio que se instalou no quarto tinha o peso de uma sentença. Eu mantive meus braços cruzados sobre o peito, sustentando o olhar do homem que, em tão pouco tempo, havia se tornado o meu mundo inteiro. Eu precisava ser firme, não por falta de amor, mas por amor-próprio.

— Então, agora estamos só nós dois, Ambrose. Não seremos mais interrompidos. E eu já saquei perfeitamente quem é essa mulher. Agora, eu só preciso que você me fale… O que a Katlyn está fazendo de volta na sua vida?

Fiquei esperando uma resposta, o coração batendo descompassado no peito. O Ozzie me encarou por alguns segundos, os olhos azuis nublados por uma tempestade de sentimentos que eu ainda não conseguia decifrar. Ele deu um passo à frente, segurou a minha mão com delicadeza e soltou o ar devagar.

— Antes de dizer o porquê de ela estar aqui, vou te contar quem ela é.

Pisquei, genuinamente surpresa. Eu não achava que ele iria direto ao assunto com tanta honestidade. No mesmo instante, a imagem do Mike invadiu a minha mente. Meu ex sempre enrolava em nossas conversas, desconversava, mudava de assunto e criava uma teia de mentiras para me enganar. Mas com o Ambrose tudo era sempre diferente. Ele não tentou se esquivar.

Ozzie me puxou com cuidado até a beirada da cama e nós dois nos sentamos, um de frente para o outro. Ele engoliu em seco, fixando o olhar nos nossos dedos entrelaçados antes de começar a falar sobre o seu passado com a Katlyn. Ele me explicou que eles começaram através de um contrato.

— Contrato? — perguntei, a testa franzida em confusão.

Ele assentiu, a expressão séria.

— Sim. Eu sou um Dominador e ela era a minha submissa. Mas, conforme a convivência foi se estendendo, eu acabei quebrando a minha própria regra. Eu me apaixonei por ela. Preparei tudo para pedi-la em namoro de verdade. Eu nunca fui um cara muito romântico, Fer. Sempre me achei atencioso, prestativo com as minhas subs, mas romântico nunca. Só que, naquele dia, eu quis ser. Por ela, eu seria.

Senti uma ponta de dor no peito ao ouvir o carinho nas palavras dele ao se lembrar daquela época. Uma insegurança boba tentou me morder, trazendo ecos do meu próprio passado rejeitado, mas não comentei nada. Eu precisava ouvir o restante. Apenas apertei de leve a mão dele, permitindo que ele continuasse.

Ambrose soltou um suspiro longo, o maxilar travando de leve.

— Como minha submissa por contrato, eu era o responsável financeiro pela Katlyn. Ela tinha uma vida de princesa, como ela mesma costumava dizer na época. Mas, no dia em que eu me declarei e sugeri que quebrássemos o contrato para começarmos um relacionamento real, ela me rejeitou. Disse que não conseguia, que o contrato e a estabilidade eram importantes demais para ela abrir mão. Ela sugeriu que nós poderíamos nos chamar de namorados na frente dos outros, mas que deveríamos manter o contrato financeiro ativo.

Consegui ver a dor nítida passar pelos olhos dele, a sombra da decepção antiga de entregar o coração e não ser retribuído da mesma forma. Por puro instinto de proteção, apertei a mão dele com mais força. Ozzie percebeu o meu gesto, levou os meus dedos até os lábios e deixou um beijo suave ali antes de sorrir fraco.

— Estou bem, querida. Isso já não me machuca mais, eu juro.

Assenti com a cabeça, sentindo meu peito aliviar um pouco, e ele continuou o relato. Ele me explicou que, na época, mesmo arrasado pela rejeição, aceitou continuar com o contrato de Dom e sub, mas deixou claro que seria apenas aquilo e nada mais. Ele avisou a ela que, assim que o prazo estipulado no documento se encerrasse, cada um seguiria para o seu canto. Katlyn, mesmo relutante, aceitou as condições.

— Depois disso, as coisas nunca mais foram as mesmas — Ozzie continuou, a voz descendo um tom. — O clima ficou frio. Eu via o Dam com a Clara, via o Stan com a Giovanna, e desejava aquilo para mim. Queria uma mulher que estivesse comigo por amor, não por um papel. Um dia, nós estávamos no Dojon e a Katy começou a me provocar de um jeito agressivo, testando todos os meus limites. Eu avisei que, se ela não parasse com aquilo, eu a puniria. E ela me olhou nos olhos e disse que era exatamente aquilo que ela queria.

— A Katy passou dias internada no hospital — ele continuou, a voz embargada. — O contrato acabou me salvando de ir para a cadeia, já que existia uma cláusula explícita de consentimento e riscos para atividades daquele tipo. Mas eu me condenei. Assim que ela melhorou, eu encerrei o contrato de vez, dei uma quantia enorme de dinheiro para ela reconstruir a vida e disse que nunca mais queria vê-la na minha frente. Foi ali, naquele hospital, que nasceu o meu celibato. Eu havia decidido que nunca mais tocaria em uma mulher, porque tinha medo de perder o controle e ferir alguém de novo.

Ozzie levantou os olhos, fixando-os nos meus. Ele esticou a mão trêmula, a colocou delicadamente no meu rosto e me acariciou com uma ternura que me fez chorar junto com ele.

— Nunca mais… Até você aparecer na minha vida, Fer. Você me mostrou que eu não era aquele monstro. Você me ensinou que eu ainda podia ser feliz e amar de verdade.

As lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto. O Ozzie se aproximou, secando a minha pele com os dedos, implorando baixinho para que eu não chorasse, principalmente por causa dele. Eu não consegui conter o turbilhão de amor e compaixão que senti por aquele homem que havia passado anos se punindo por um erro do passado.

Me inclinei para a frente, busquei os lábios dele e o beijei. Foi um beijo calmo, profundo, cheio de entrega e de perdão silencioso.

Quando o beijo terminou, mantive a minha testa encostada na dele, sentindo as nossas respirações misturadas. Eu entendia o trauma dele, entendia a dor. Mas a pergunta principal ainda pairava no ar daquele quarto.

— Ozzie… Eu entendo tudo isso agora, de verdade — murmurei, a voz baixa. — Mas eu ainda não entendo o porquê. Depois de toda essa história, depois de tudo o que ela te fez passar e do que aconteceu entre vocês… Por que trazer a Katlyn de volta para a sua vida?

Me afastei um centímetro, olhando bem no fundo dos olhos dele. E, depois de tudo o que eu tinha acabado de ouvir, senti um medo genuíno e avassalador da resposta que viria a seguir.

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