Capítulo 114 — Via de Mão Dupla
Ambrose Blair
O pânico é uma sensação curiosa para um homem que passou anos fingindo que nada no mundo tinha o poder de atingi-lo. No momento em que os olhos verdes da Fernanda me encararam, exigindo respostas, eu senti o chão sumir sob os meus pés.
O medo de que ela não confiasse em mim, de que interpretasse errado as minhas intenções ao trazer a Katy para cá, subiu pela minha garganta como um nó amargo. Tudo entre nós estava acontecendo de um jeito tão limpo, tão certo, e a última coisa que eu queria era que o fantasma do meu passado arruinasse o nosso presente.
— O que a Katy está fazendo aqui? E por que ela precisa ficar no seu apartamento?
A pergunta dela continuava ecoando na sala, fria e direta. Olhei de relance para a Katy, que enxugava uma lágrima discreta, e voltei a encarar a Fernanda, sentindo o peso de cada par de olhos naquele cômodo em cima de nós.
— Querida, eu vou te explicar, só preciso que…
Estendi a mão, tentando tocá-la, querendo puxar o corpo dela para perto do meu para que ela sentisse que o meu coração só batia por ela, mas a Fer recuou um passo. A postura dela estava ereta, e a voz saiu firme, sem qualquer hesitação.
— Precisa que eu confie em você.
Ela sustentou o olhar no meu, aqueles olhos verdes faiscando uma determinação que me deixou desarmado.
— E eu disse que confio. Mas confiança é uma via de mão dupla. Se quer que eu confie em você, confie em mim e seja sincero na sua resposta. Agora!
Eu me senti completamente encurralado. Não era assim que eu queria conversar com a Fer. Não era dessa forma, no meio de uma sala de estar com uma plateia, que eu planejava contar o meu passado para ela. Eu odiava a ideia de expor as minhas antigas fraquezas, a rejeição que sofri e o motivo de ter me fechado para o mundo por tanto tempo, e muito menos queria fazer isso na frente dos outros.
Os caras e a Emma conheciam a minha história, sabiam o quanto aquela rejeição tinha me quebrado, o quanto a atitude da Katlyn havia me deixado marcas. As marcas nunca foram só as físicas que aconteceram naquele dia, foram marcas na alma. Na minha alma. E falar disso abertamente, sob pressão, definitivamente não estava nos meus planos.
Antes que eu pudesse formular a primeira frase, o som do elevador privativo interrompeu o confronto. A porta se abriu e o Gayer entrou na sala. Ao notar o clima pesado e o silêncio mortal que dominava o ambiente, ele desacelerou os passos, parando um pouco mais atrás e soltando um cumprimento cauteloso.
— Boa noite...
Dominic, percebendo que a situação precisava de um desfecho imediato, assumiu as rédeas da conversa. Ele olhou para o chefe da segurança e deu a ordem.
— Gayer, acompanhe a Katy até o apartamento do Ambrose, por favor.
O homem assentiu prontamente. Katy deu um passo à frente, as mãos juntas em frente ao corpo, e olhou na minha direção.
— Ozzie…
Olhei para a Fernanda, que continuava imóvel, esperando a minha resposta. Depois, desviei o olhar para a mulher que um dia significou o meu mundo, mas que hoje não passava de uma lembrança dolorosa.
— Katlyn, eu prometi te ajudar com um lugar seguro para ficar até você resolver os seus problemas legais — falei, a voz firme, sem deixar margem para segundas intenções. Dei um passo na direção da Fernanda e passei a minha mão pela cintura dela. Senti o corpo da minha namorada tensionar por um breve instante com o toque, mas não a soltei, mantendo-a colada ao meu lado enquanto eu continuava a falar com a Katy. — E eu vou cumprir com a minha palavra. Mas não espere nada além disso.
Katy engoliu em seco e assentiu com um aceno sutil. Notei algumas lágrimas escorrerem por seu rosto, mas ela as secou rapidamente com a ponta dos dedos, tentando manter a postura.
— Ok. Muito obrigada. — Me respondeu com a voz embargada. Ela se virou para o segurança. — Podemos ir?
Gayer fez um gesto indicando o elevador e seguiu com ela ao seu lado. Antes de cruzar o limite da cabine, a Katy girou o corpo e seus olhos procuraram os meus. Por um segundo, um segundo mais longo do que o estritamente necessário, eu sustentei aquele olhar, vendo a porta metálica se fechar logo em seguida e isolar o passado do lado de fora.
Assim que o elevador desceu, senti a Fernanda se afastar de mim rapidamente, desfazendo o meu aperto na sua cintura. Olhei para ela, confuso e com o peito apertado.
— Fer…
— Acho que você não precisa me dizer nada, as coisas ficaram bem claras agora — ela me interrompeu, dando mais um passo para trás. Ela tinha visto meu olhar com a Katlyn.
A dor da rejeição precoce nos olhos dela me atingiu como um soco. Dei um passo à frente, me recusando a permitir que ela se afastasse mais, me recusando a deixá-la construir uma parede entre nós.
— Não — respondi, o tom de voz subindo pela primeira vez, firme e categórico. — Elas não estão claras.
Eu conseguia ver os olhos dela brilhando com uma camada de lágrimas represadas, algo que beirava a decepção, e aquilo me desesperou. Eu não podia permitir que ela entendesse tudo errado, que achasse que eu ainda sentia algo pela Katy. Olhei para os meus amigos, implorando silenciosamente por um pouco de espaço.
— Será que vocês podem nos deixar a sós um minuto?

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