Capítulo 123 — Cavalos de Tróia
Tristan Blackwood
Eu olhava para aquelas folhas brancas com os dedos trêmulos, sentindo o papel queimar a minha pele como se fosse uma sentença de morte. Minha mente se recusava a processar os dados impressos ali.
O percentual de compatibilidade gravado em letras escuras zombava da minha convicção, destruindo a única certeza que me mantinha de pé. Senti o ar faltar nos meus pulmões e olhei para a Ester, a voz saindo em um sussurro desesperado, sufocado pela indignação.
— Não é possível… Ester, o tempo não b**e. A conta não fecha. Ela… Ela já estava com outro cara quando terminamos de vez.
Segurei o braço da minha amiga, fixando meus olhos nos dela, buscando qualquer sinal de que aquilo fosse um pesadelo.
— Me diz… Como isso é possível?
Ester manteve a calma que a sua profissão exigia. Ela se virou para o colega de plantão, agradeceu pela entrega do documento e pediu educadamente para que tivéssemos um minuto a sós.
O médico assentiu prontamente com a cabeça e se afastou pelo corredor, deixando-nos com a privacidade necessária. Assim que ficamos sozinhos, Ester me puxou com firmeza para um canto mais reservado, perto de uma janela lateral, e segurou os meus ombros.
— Respira, Tristan. Fica calmo e me escuta.
— Ficar calmo, Ester? — rebati, o maxilar travado de ódio. — Aquela víbora conseguiu o que queria!
— Presta atenção — ela me interrompeu com a voz baixa. — Depois que eu saí do hospital naquele dia que colhemos as amostras, eu fiquei extremamente incomodada com a abordagem. Havia algo errado no ar, mas eu não quis piorar a situação colocando minhocas na sua cabeça sem ter dados reais. — Ester mantinha sua voz baixa e controlada. — Então, eu voltei aqui na manhã seguinte, e fui investigar. Descobri que o laboratório responsável pela análise foi mudado na última hora, sem aviso prévio da junta médica, e sob uma justificativa administrativa que simplesmente não b**e com o protocolo padrão do hospital.
Olhei para ela, o choque abrindo espaço para uma ponta de esperança na minha mente.
— Você acha que esse teste foi adulterado? Que a Giovanna comprou o resultado?
Ester assentiu com a cabeça, a expressão séria.
— Eu tenho quase certeza de que sim, Stan. Mas nós não temos nenhuma prova física no momento. Confrontar a Giovanna agora, no estado psicológico em que ela alega estar e ainda carregando uma gestação de risco, só vai complicar a sua situação legal. Ela vai se fazer de vítima, e isso pode dificultar muito as coisas para você.
Passei a mão pelos cabelos com violência, a irritação correndo pelas minhas veias como veneno.
— Eu não posso levar essa mulher de volta para a minha vida com essa dúvida maldita me corroendo, Ester. Eu não vou assumir um filho que sei que não é meu. Eu quero refazer esse exame agora! Vamos colher o sangue dela de novo neste exato segundo!
— Pensa, Tristan! Se acalma e confia em mim — ela pediu, segurando as minhas mãos com carinho para conter o meu tremor. — Nós vamos refazer esse teste, eu te prometo, mas vai ser em breve e em outro lugar. Por hora, você precisa confiar na minha estratégia e seguir o fluxo. Deixa ela acreditar que venceu essa rodada.
— Ester… — eu tento, mas ela me interrompe.
— Olha, o Juan já está usando os métodos dele nesse exato momento para conseguir as informações que eu preciso, e depois nós vamos pedir ao Dom para fazer uma varredura com um mandado se for preciso. E se mesmo assim nós não conseguirmos quebrar o sigilo por vias legais, eu dou o meu jeito de coletar uma nova amostra de DNA dela sem que ela perceba e envio para um laboratório da minha total confiança.
Eu queria resolver tudo ali, na hora. O meu impulso era chutar a porta daquele quarto e arrancar a verdade da Giovanna à força. Se aquele bebê não fosse meu, eu não queria aquela mulher a menos de um quilômetro de distância de mim ou da Aubrey.
Mas a Ester tinha razão, e a sua voz sensata começou a desarmar a minha impulsividade.
— É o melhor caminho que nós temos agora, Stan — ela continuou, apertando os meus dedos. — Até obtermos as provas, tudo o que temos são suposições médicas. E conhecendo o histórico da Giovanna, se você gritar com ela agora, ela vai alegar que é a minha antipatia pessoal por ela que está cegando o seu julgamento. Só confia em mim. Em poucas semanas, nós teremos tudo isso resolvido e essa mulher fora do seu caminho para sempre.
Fechei os olhos por longos segundos, engolindo o meu orgulho e o meu rastro de fúria. Assenti com a cabeça, aceitando o acordo.
— Tudo bem.
Caminhamos de volta em direção ao posto médico. Juan se aproximou de nós no meio do caminho, com aquele sorriso de canto que indicava que ele tinha cumprido a sua missão com sucesso. Ele olhou para a Ester e falou em um tom cúmplice:
— Como um bom marido, com um sorriso aqui, e uma ameaça eficaz ali…
— Juan… — Ester chamou atenção dele.
— É. Você disse — respondi, a voz seca, desprovida de qualquer calor humano.
Giovanna me mediu, parecendo ignorar o meu gelo, focada apenas no objetivo final.
— Então agora nós podemos ir embora daqui, não é? Finalmente podemos ir para a sua casa? Esquece a ideia da Verônica e dos meninos de irmos para o Dam. Vamos para o seu apartamento, juntos.
Neguei com a cabeça lentamente, e vi o sorriso dela vacilar no mesmo instante, uma linha de confusão cruzando as suas feições.
— Como assim não, Stan? Você prometeu! Você me prometeu naquele dia que me levaria com você se o teste confirmasse que o bebê era seu! Você deu a sua palavra!
— E eu vou cumprir com o que eu disse — concordei com um aceno rígido de cabeça, dando um passo à frente para que ela sentisse a autoridade nas minhas palavras. — Eu te disse que cuidaria de você e da sua saúde até que você estivesse totalmente apta a cuidar de si mesma. Mas eu também te avisei, muito claramente naquele mesmo dia, que não seria na minha casa.
— Mas, Stan… — ela tentou argumentar, a voz subindo em uma lamentação ensaiada.
Cruzei os braços novamente, a encarando com uma firmeza implacável, cortando qualquer espaço para discussões ou dramas.
— Eu não estou me negando a te dar ajuda, Giovanna, e nem estou descumprindo a promessa de te levar comigo hoje. Mas você não vai para o meu apartamento. Você vai para a casa do Damien, onde você terá o seu próprio quarto de hóspedes.
— Meu próprio quarto? — a voz dela saiu carregada de decepção.
— Sim, seu quarto. E lá, você terá além do meu apoio financeiro, a estrutura dos meus amigos… E a convivência diária com a minha mulher.
— Você está falando sério? Você vai me obrigar a conviver com aquela garota?
A encarei por alguns segundos.
— Bem, a decisão de vir morar comigo foi sua Giovanna. — Ester solta uma risadinha, mas logo se recompõe. — E então? Está pronta?

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