Capítulo 125 — Território Inimigo
Giovanna Hampton
A pergunta da Ester ainda ecoava na minha mente “não é um máximo?”. Eu pisquei várias vezes tentando controlar a vontade de unhar a cara dela, até tirar aquele sorriso do seu rosto.
Ela se levantou, sem esperar minha resposta, segurou a mão do Juan e se despediu, deixando o saguão logo em seguida. Agora restavam apenas eu, o Stan, o Ozzie e a minha mente agitada pensando em uma forma de me livrar da Ester.
Ambrose quebrou o silêncio pesado da recepção com o seu habitual tom desinteressado.
— Bem, já que acabamos o show por aqui, eu vou para o clube porque tenho algumas coisas pendentes para resolver. Encontro vocês em Hoboken mais tarde.
Ele puxou o Stan para um abraço rápido de despedida. Para mim, assim como todos os outros haviam feito, ele deu apenas um aceno leve com a cabeça e saiu pelas portas de vidro.
Tristan parou bem em frente à minha cadeira de rodas. Ele segurava a minha mala pequena de mão com uma das mãos, o semblante fechado.
— Vamos levar isso para a mansão agora, e depois eu peço para alguém buscar o restante das suas coisas que ficaram no seu antigo apartamento.
Dei o meu sorriso mais meigo para ele, tentando amolecer aquela muralha de gelo.
— Obrigada por estar cuidando de mim, Stan.
Ele me encarou, e o seu rosto continuou completamente rígido, sem retribuir a minha simpatia.
— Eu estou cuidando da saúde do bebê, Giovanna, e não de você. Que isso fique bem claro de uma vez por todas.
Engoli em seco, sentindo o gosto amargo da rejeição descer pela minha garganta. Ele continuou a ditar as ordens, virando as costas.
— Agora vamos. O carro está parado aqui na porta.
Olhei para as costas dele, confusa com a falta de cavalheirismo, e questionei do meu lugar:
— Você não vai me carregar até o carro?
Tristan parou, girou o corpo devagar e soltou um riso curto, totalmente desprovido de humor ou compaixão.
— Você está com algum problema físico nas pernas, Giovanna? Porque a cadeira de rodas é apenas um padrão de segurança do hospital para dar alta aos pacientes, e não porque você está inválida. Então, mexa-se.
A resposta dele foi como um soco direto no meu estômago. O meu Stan prestativo, carinhoso, o homem atencioso que fazia todas as minhas vontades no passado simplesmente não existia mais.
Abaixei a cabeça, engolindo a humilhação, e respondi baixinho:
— Tudo bem… Eu vou andando.
Me levantei da cadeira de feltro. Um dos seguranças da clínica que nos acompanhava pegou o objeto metálico e o levou de volta para dentro, enquanto nós dois caminhamos em direção à saída, lado a lado, imersos em um silêncio sufocante.
A viagem de carro até Hoboken foi uma verdadeira tortura psicológica. O Tristan não olhava para a minha cara, não puxava assunto e manteve os olhos fixos na rodovia o tempo todo. Parecia uma estátua de pedra. Sem emoção. Sem interação. Somente as mãos firmes e fixas no volante.
Eu conhecia o Stan melhor do que ele mesmo se conhecia, e sabia que tentar forçar a barra ou chorar agora não seria o melhor caminho. Ele precisava de tempo para digerir a notícia, e eu precisava de espaço estratégico dentro daquela mansão para começar a minha reconquista.
Assim que estacionamos e descemos do veículo, a Leah veio ao nosso encontro no hall externo.
— Bom dia — ela me cumprimentou, mantendo aquele sorriso profissional de sempre no rosto.
— Bom dia, Leah. Quanto tempo — respondi, tentando demarcar o meu antigo território.
Ela sorriu novamente antes de rebater, mantendo a postura polida.
— Tempo mesmo, senhorita Hampton. Seja bem-vinda.
— Obrigada — respondi, vitoriosa.
Caminhamos para o interior da mansão e, assim que passamos pela imponente porta de entrada, dei de cara com a copeira maldita e uma garota que eu nunca tinha visto na vida conversando no centro do hall.
Tristan nem sequer se importou com a minha presença ou com o fato de estarmos em um ambiente público. Ele caminhou firme até a Aubrey, segurou a sua cintura com força e a puxou para um beijo estalado, sussurrando algo bem baixinho contra os lábios dela logo em seguida.
Assim que entramos no quarto de hóspedes destinado a mim, a governanta se virou, indicando o espaço com a mão.
— Eu coloquei aqui tudo o que achei que fosse necessário para o seu conforto inicial, senhorita Hampton. Mas, caso sinta falta de alguma coisa, basta pedir.
Olhei para a mulher e abri o meu sorriso mais falso, deixando o veneno escorrer pelas minhas palavras.
— Está faltando uma coisa sim, Leah. Está faltando a sua sobrinha limpar o caminho e sumir de perto do meu noivo. Acha que você, como governanta da casa, pode providenciar isso para mim?
O sorriso profissional sumiu dos lábios da Leah no mesmo milésimo de segundo. Vi a fúria faiscar naqueles olhos velhos, e ela deu um passo firme na minha direção.
Por puro reflexo de defesa, acabei dando um passo para trás.
— Tudo o que for pertinente à minha função como governanta desta mansão, eu farei para a senhorita, pois este é o meu trabalho e eu sou paga para isso — ela falou, a voz saindo baixa e cortante. — Mas sobre a minha sobrinha, até onde eu tenho conhecimento, a senhorita mesma foi quem fugiu correndo no dia do seu próprio noivado com o Tristan. E, na minha terra, quem foge da igreja não tem direito a noivo.
Olhei para ela, trêmula de ódio diante da audácia daquela empregada.
— Eu sou a mãe do filho dele! — gritei, tentando me impor.
Leah deu um passo para trás, passou a mão pelo tecido da calça de forma totalmente descontraída e soltou o golpe final com uma postura absurdamente arrogante.
— Mãe do filho dele, sim. Mas não é a esposa. Nem a noiva. E muito menos a namorada, já que esse papel hoje pertence à minha sobrinha. Agora, se a senhorita não precisa de nada que seja realmente de verdade, eu vou me retirar. Com licença.
Ela girou os calcanhares e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Tomada por uma fúria cega e incontrolável, agarrei um vaso de porcelana decorativo que estava sobre a mesinha de cabeceira e o joguei com toda a minha força contra a madeira da porta.
O som do objeto se estraçalhando em mil pedaços ecoou pelo quarto no mesmo instante em que soltei o meu grito de puro ódio:
— SUAS CRETINAS!
Uma queimação violenta tomou conta do meu peito. Encarei os pedaços de porcelana no chão e fiz uma promessa solene para mim mesma e para o vento que vinha da sacada.
— O Tristan é meu! E eu vou fazer absolutamente de tudo o que for necessário para tê-lo de volta nos meus braços. Nem que para isso eu tenha que acabar com a vida dessa copeira maldita de uma vez por todas.

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