Capítulo 154 — Fragmentos de nós
Tristan Blackwood
Ela piscou freneticamente, lutando contra o sono iminente, e fixou as pupilas nas minhas. Falei novamente, usando o mesmo tom.
— Use as palavras, querida.
— Estou… — a voz dela veio em um sussurro extremamente fraco, arrastado. — Estou confortável… mas eu ainda não sei onde estou. E… nem quem são vocês.
O meu semblante caiu no mesmo milésimo de segundo. Senti o chão sumir sob os meus pés. Por um breve, tolo e esperançoso momento, eu realmente pensei que aquele olhar fixo significasse que ela havia se lembrado de mim.
Que havia se lembrado de nós, do nosso quarto, do nosso amor. Mas não. Ela continuava no escuro.
— Isso é extremamente normal para o quadro clínico em que você se encontra agora, Aubrey. — Ester interveio rapidamente para tranquilizá-la, impedindo que ela entrasse em pânico outra vez. — Você sofreu um ferimento bem aqui na cabeça… — minha amiga passou os dedos com extremo carinho por seus fios escuros. — E tudo o que o seu corpo precisa neste momento é de repouso absoluto para que essa lesão se cure por completo. Você precisa evitar se agitar dessa maneira, querida, até mesmo para não prejudicar a saúde do seu bebê.
No mesmo instante em que a palavra foi pronunciada, Aubrey levantou os olhos em um sobressalto, encarando a minha amiga com uma surpresa genuína cortando a sua névoa mental.
— Bebê?
Ester abriu um sorriso doce, verdadeiramente materno, e passou a mão pelo rosto pálido dela.
— Bebê, meu bem. Você está grávida de poucas semanas desse gigante de olhos verdes bem aqui do seu lado.
Aubrey transferiu o olhar lentamente na minha direção, processando a informação com uma inocência que me quebrou por dentro. Ester fez um sinal discreto com a cabeça, indicando para me aproximar. Caminhei até a beira do leito, me sentei na cadeira de metal e encostei o meu corpo ao dela.
Ela me olhou bem no fundo dos olhos e perguntou em um fio de voz:
— Nós… nós vamos ter um bebê?
Assenti com um aceno lento de cabeça, sentindo as lágrimas quentes finalmente nublarem por completo a minha visão, escorrendo livres pelo meu rosto.
— Nós vamos, amor. Nós vamos ter um bebê, nosso filho tá crescendo aí dentro de você.
Estiquei os braços e a abracei de lado com total cuidado. Para o meu alívio, ela não resistiu ao meu toque; apenas se deixou reclinar contra o meu ombro, aceitando aquele calor protetor como se o seu corpo, mesmo sem memórias, reconhecesse o meu cheiro.
— Eu tenho um bebê… ela murmurou para si mesma, a voz sumindo aos poucos enquanto o peso do sedativo a dominava por completo.
Me inclinei e deixei um beijo demorado e terno em sua têmpora.
— Tem sim, querida. E segundo você, vai ser um menino lindo.
A respiração dela foi ficando cada vez mais lenta, fraca e compassada. O coquetel de medicamentos estava fazendo o seu efeito esperado, e levou apenas mais alguns segundos torturantes para que ela apagasse totalmente, dormindo profundamente nos meus braços.
A deitei de volta nos travesseiros com o máximo de cuidado e me virei para os meus amigos médicos, precisando desesperadamente de respostas reais.
— O que está acontecendo aqui, pelo amor de Deus? O que é exatamente essa Amnésia retrógrada? — perguntei, a voz embargada enquanto limpava o rosto com as costas das mãos.
Elijah e Ester se entreolharam em um silêncio cúmplice antes de o Eli dar um passo à frente para responder.
— É uma condição consideravelmente mais comum do que você imagina em casos de traumas cranianos graves como o dela, Stan. Não é necessariamente uma patologia permanente na grande maioria dos casos clínicos.

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