Capítulo 178 — O Som de um Apelido
Aubrey Fox
Do exato instante em que abri os meus olhos naquele leito frio de hospital, o Tristan Blackwood simplesmente não saiu do meu lado por um único segundo. E preciso ser bem sincera: meu Deus, que homem lindo!
Eu não tinha memórias sobre quem eu era, sobre o meu passado, infância, família ou qualquer detalhe da minha vida. Mas a minha mente ainda se lembrava perfeitamente de como se utilizavam as palavras e qual era o exato significado de cada uma delas.
Eu sabia apreciar perfeitamente um homem bonito e conseguia imaginar com facilidade o quanto ele devia ser delicioso. Eu sabia o que significava um beijo, mas não tinha nenhuma lembrança de já ter beijado alguém antes na vida. E, meu Deus… Quando o Tristan se aproximou para me mostrar na prática como funcionava, a minha vontade era que a boca dele simplesmente nunca mais saísse da minha.
Os dias se passaram na UTI. Não foram muitos, eu contei mentalmente: exatamente três dias. A Esther e o Elijah vieram até o meu quarto para me dar a notícia de que eu finalmente receberia alta médica e iria para casa.
Eles me explicaram com toda a calma do mundo a minha situação clínica real, falaram sobre o bebê e esclareceram o motivo de toda aquela dor forte na barriga que eu vinha sentindo, acompanhada por um sangramento mais intenso.
Eles chamaram aquilo de conduta expectante: o meu próprio organismo tinha se encarregado de expelir o saco gestacional de forma natural e limpa, funcionando quase como uma menstruação bem mais forte.
Os exames de ultrassonografia confirmaram que não havia restado absolutamente nada no meu útero, tornando desnecessário qualquer tipo de procedimento cirúrgico ou invasivo.
Eu, no fundo, não senti muita coisa ao saber que aquele bebê tinha partido. Digo isso com um pouco de vergonha, mas era a verdade nua e crua. Só que a tristeza visceral que tomava conta do olhar do Tristan ao falar sobre o assunto mexia profundamente comigo.
Acabei me sentindo extremamente mal e culpada por me perceber tão insensível com a perda de uma vida. Foi então que a Esther sentou-se ao meu lado, segurou a minha mão e me consolou com doçura.
Ela explicou que a minha reação era perfeitamente normal: não havia como uma pessoa sentir a dor física do luto ou a saudade de algo que a sua mente simplesmente não se lembrava de ter vivido.
Ela me garantiu que isso não me tornava uma pessoa ruim ou fria, e sim uma pessoa completamente humana diante de uma tragédia dessas.
Depois disso , seguimos para casa.
Casa… A palavra ainda soava estranha e distante para o meu vocabulário atual.
Tristan dirigia o carro com total atenção à estrada, mas mantinha o olhar constantemente voltado para mim no banco do passageiro.
— Amor… Quando nós chegarmos lá, lembra do que o médico te falou: você não precisa forçar a sua mente de jeito nenhum. Se porventura você se lembrar de alguma coisa, vai ser maravilhoso… — ele apertou com carinho a minha mão, que repousava sobre a sua coxa enquanto ele dirigia. — …Mas se você não se lembrar de nada, está tudo perfeitamente bem também. Promete para mim que você não vai ficar se preocupando com isso? Que vai deixar as coisas acontecerem no tempo delas?
Encarei aqueles intensos olhos verdes, que já estavam se tornando a minha cor favorita no mundo inteiro.
— Tudo bem… Eu prometo. — respondi.
Ele levou a minha mão até os seus lábios e depositou ali um beijo demorado, que me causou um arrepio delicioso da nuca até a ponta dos pés.
— E me promete também que qualquer coisa que estiver te incomodando, ou qualquer sensação diferente que você sentir, vai me dizer na hora?
Sorri para a preocupação fofa dele.
— Prometo, Tristan.
Ele passou a ponta do nariz pela minha pele com doçura, beijou os meus dedos novamente e colocou a minha mão de volta sobre a sua perna.
O restante da viagem foi calmo e silencioso. Mas quando o veículo finalmente parou em frente a uma propriedade gigantesca, com uma mansão de arquitetura imponente, eu fiquei em absoluto choque.
Tristan desceu do carro, deu a volta pelo capô e abriu a porta para mim com todo o cuidado do mundo. Eu desci os pés para o chão e me perdi por um breve instante nos meus próprios pensamentos.
Eu sabia perfeitamente que ele tinha acabado de me pedir para não forçar a barra, mas uma vontade incontrolável de lembrar me invadiu. Eu queria ter a certeza de que realmente pertencia àquele lugar luxuoso.
Foi então que eu a vi.
Ela tinha longos cabelos loiros, olhos azuis intensos que transmitiam uma mistura profunda de doçura e dor ao mesmo tempo. Ela era incrivelmente linda. Desviei os meus olhos do rosto dela por um segundo e olhei de lado para o Tristan, a incerteza me dominando.
— É aqui?… É aqui que eu moro? — perguntei em tom baixo.
Ele abriu um sorriso acolhedor e deixou um beijo terno na minha têmpora antes de responder.
— É sim, meu amor.
Assenti com um movimento leve de cabeça e voltei a olhar para a moça loira à minha frente. Eu não tinha a menor ideia se nós nos conhecíamos do passado ou não, então tentei ser o mais educada e polida possível.
Dei um passo à frente, estendi a minha mão direita na direção dela e falei:
— Oi… Eu sou a Aubrey. E você é?…
A moça piscou várias vezes seguidas, parecendo em choque. O sorriso fraco que ela ostentava no rosto simplesmente desapareceu. Abaixei a minha mão na hora, envergonhada, e dei um passo para trás, esbarrando no peito do Tristan, que me envolveu em um abraço protetor no mesmo instante.
Olhei para ele por cima do ombro e sussurrei assustada:
— Eu… Eu falei alguma coisa errada? — Tristan sorriu para mim com carinho.

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