Capítulo 202 — Raízes de Amor
Damien Knight
— Ellie… agora conta para o tio Dam com toda a verdade do seu coraçãozinho: por que você fugiu da nossa casa? — perguntei, a minha voz saindo baixa, calma e acolhedora, embora o meu interior ainda estivesse em carne viva pelo desespero das últimas horas.
Ela soltou o ar devagar pelos lábios ressecados. Foi um suspiro tão pesado, tão arrastado e dolorosamente cansado que parecia carregar o peso do mundo inteiro nas costas, um fardo que nenhuma criança de apenas seis anos de idade jamais deveria sequer sonhar em carregar.
Ellie usou a manga encardida de terra do seu vestido para limpar o narizinho e os olhos marejados, e então ergueu aquele olhar tão idêntico ao da Emma para me encarar.
— A Ellie fugiu… porque não queria que ninguém visse ela chorar, tio Dam.
— Meu amor, e qual seria o problema em vermos você chorar? — perguntei passando a mão por seu rostinho.
— Porque choro é coisa triste, e… e todo mundo tava feliz.
A vozinha dela saiu trêmula.
— E o que te deixou triste?
— Eu não lembro da voz do meu papai… — ela começou. — Não lembro do cheirinho da minha mamãe… Eu só sei como eles eram por causa daquela fotinho que a Emma deixa na mesinha do quarto. E a Ellie ficou pensando muito… ela nunca vai ter voz de papai ou cheiro de mamãe para lembrar. Nunquinha vai ter.
Cada palavra que saía daquela boquinha entrava no meu peito como uma lâmina em brasa, cortando a minha alma ao meio.
— Quando o tio Dam falou lá na mesa que a Emma vai ter dois bebês na barriga… e o Luquinha pulou e disse que a Emma agora é a mamãe dele de verdade… a Ellie entendeu tudo.
Ela continuou a explicar, usando as mãozinhas pequenas para gesticular na penumbra, tentando colocar em palavras todo o nó da sua cabecinha pura.
— A Ellie entendeu sabe por quê?
— Não sei, me conta princesinha.
— Porque a tia Sa explicou um dia desses, faz uns dias, não lembro qual foi. — ela apertou os olhos como se quisesse lembrar do dia, mas logo deixou pra lá. — Mas ela falou que família de verdade é quando tem um papai, uma mamãe e os filhinhos deles morando juntos. Aí agora… a Emma vai ser a mamãe dos dois bebês novos e do Luquinha. O tio Dam vai ser o papai dos bebês e do Luquinha. Vocês todos vão formar uma família de verdade… e a Ellie não vai ser filha de ninguém.
Ela engoliu em seco, as lágrimas voltando a descer com força pelo rostinho pálido, abrindo caminhos limpos na poeira da sua pele.
— A Ellie pensou que… que o tio Dam não ia poder mais me chamar de princesinha. Pensei que o tio Dam não ia mais entrar no meu quarto correndo de manhã para me encher de beijos e me chamar para tomar café, porque agora o tio Dam vai ter os seus próprios filhinhos para cuidar… E a Emma também não vai mais poder deitar do meu lado para contar historinha de princesa antes de dormir, porque ela vai estar muito ocupada dando banho e cuidando dos dois bebês. — ela fez sinal com os dois para enfatizar a quantidade. — A Ellie não queria ficar atrapalhando… A Ellie não queria ficar no caminho vendo todo mundo ser uma família feliz e eu sobrando sozinha. Dói aqui oh… — ela cutucou o peito com o dedinho. — E dói muito saber que a Ellie vai ficar sozinha.
Aquele desabafo infantil, desprovido de qualquer maldade e carregado por uma solidão tão injusta, me desarmou por completo. Senti um nó sufocante travar a minha garganta.
Envolvi o corpinho miúdo dela com ainda mais força e proteção nos meus braços, a colando contra o tecido da minha camiseta, querendo ser o escudo inabalável contra todos os medos, fantasmas e inseguranças que ousaram machucar o coração da minha menina.
— Vem cá, meu amor… Escuta o tio Dam com muita atenção. — murmurei bem perto do ouvido dela, a minha voz embargada e falhando pela emoção bruta que eu já não fazia questão alguma de esconder. — Você nunca mais na sua vida vai precisar ter medo de ficar sozinha. Você nunca mais vai pensar que está sobrando em canto nenhum, minha princesa.
Afastei o rostinho dela com cuidado infinito, segurando as suas bochechinhas macias e geladas entre as palmas das minhas mãos, obrigando-a a fixar aquelas pupilas azuis no fundo dos meus olhos:
— A sua lógica sobre o que é uma família até parece certinha na teoria, Ellie. Uma família é sim formada pelo amor entre pais e filhos… Mas você errou feio, muito feio mesmo, quando achou que não era filha de ninguém neste mundo.
A garotinha piscou os olhos devagar, as lágrimas presas nos cílios compridos, exibindo uma expressão de profunda e dolorosa melancolia que me rasgou por dentro.
— Eu sei que sou a filhinha do meu papai que virou estrelinha lá no céu, tio Dam. Mas a Ellie tá falando de ter um papai aqui no chão… Não um papai que já tá lá em cima cuidando de mim com os anjos.
Dei um sorriso carregado de amor e ternura no meio das minhas próprias lágrimas diante daquela sinceridade tão desconcertante. Aproximei o meu rosto do dela até encostar a minha testa na sua, sentindo a sua respiração quente bater contra a minha pele.
— Pois fique você sabendo que aqui embaixo, no chão, você também tem um papai de verdade, minha princesinha.


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