Capítulo 239 — A Decisão da Presa
Katlyn Pratt
A marca do tapa no meu rosto ainda ardia de leve, mas a sensação que predominava no meu peito não era dor.
Era assombro.
Eu, que passei meses me encolhendo pelos cantos e aceitando cada humilhação calada de cabeça baixa, tive a coragem de me jogar na frente daquela mulher para proteger a Fernanda. Pela primeira vez em anos, eu não agi como uma vítima paralisada. Eu defendi alguém que foi generosa comigo.
Depois, veio o jantar.
Quando Bruno cruzou a porta da sala ao lado do Dominic, vestindo aquele terno impecável com uma presença austera que preenchia o ambiente, o ar pareceu rarefeito ao meu redor.
Ele se sentou exatamente ao meu lado à mesa. Cada vez que os ombros dele roçavam de leve no meu braço, ou quando ele me servia a água sem dizer uma única palavra, mas fixando aqueles olhos escuros e intensos nos meus, meu coração dava solavancos descompassados.
O tom grave e calmo da voz dele ainda ressoava na minha cabeça como um abrigo seguro no meio do furacão.
Após a sobremesa, os homens se fecharam no escritório do Damien. Nós nos espalhamos pelos sofás e pelo tapete felpudo da sala de TV com as crianças.
Taylor estava jogada em uma poltrona, apontando o pé descalço na direção da Violet.
— Dona Violet… eu vi muito bem a senhora fugindo dos olhares do Gayer à mesa! Pode ir abrindo o bico!
Violet escondeu o rosto avermelhado entre as mãos, rindo sem jeito.
— Não tem nada para abrir, Taylor! Nós apenas trocamos duas frases sobre a segurança do prédio de vocês, estou pensando em me mudar pra lá!
— Sei, segurança… — Aubrey zombou com doçura do outro lado do sofá. — Eu vi os dois no domingo atrás da pilastra da varanda quase colando as bocas! Não me venha com história de hospital, doutora!
— Eu apoio totalmente esse casal — Esther pontuou com um sorriso cúmplice, ajeitando as almofadas. — O Gael é um homem excelente e a Vi merece alguém de respeito.
A sala explodiu em risos descontraídos, mas eu continuei em silêncio absoluto, encarando as minhas próprias mãos pousadas sobre os joelhos.
Fernanda notou a minha mudez, levantou-se do tapete e sentou-se ao meu lado no sofá, tocando o meu joelho com delicadeza.
— No que você está pensando, Katy?
Ergui os olhos para ela, sentindo o nó na garganta se apertar.
— Na conversa deles lá dentro… O Ambrose me disse mais cedo que eles iam falar sobre o Estevan. É sobre a minha vida, Fer. Sobre o monstro que me caça. Eu… eu sinto que deveria estar lá ouvindo o que eles pretendem fazer.
Taylor descruzou as pernas no mesmo segundo, ficando de pé com a postura firme.
— E você está coberta de razão, loira! Quem está com a cabeça a prêmio é você, não eles. Vem, levanta desse sofá agora mesmo que nós vamos lá!
Olhei para a Taylor com hesitação, mas Esther incentivou com um aceno encorajador de cabeça.
— Vai lá, Katlyn. É o seu direito saber de cada detalhe.
Respirei fundo e me levantei. Fernanda pegou na minha mão e caminhamos as três pelo corredor silencioso, deixando as outras cuidando das crianças.
Quando nos aproximamos da porta do escritório do Damien, notamos que ela estava entreaberta por uma fresta de poucos centímetros. As vozes ásperas e alteradas vazavam com clareza para o corredor.
— Essa não é uma decisão sua, agente… Isso é entre mim e a Katy — a voz firme do Ambrose cortou o ar.
E logo em seguida, veio uma resposta baixa, gutural e carregada de uma autoridade gélida que fez a minha espinha inteira estremecer.
— Veremos.
Reconheci o timbre do Bruno no mesmo milésimo de segundo.
Taylor me olhou de lado com uma sobrancelha erguida, me incentivando em silêncio. Empurrei a porta com a mão trêmula e entrei no cômodo.
Todos os olhares se voltaram na minha direção como disparos. Ambrose e Bruno estavam parados a menos de um palmo de distância um do outro no centro do tapete, com o peito largo quase colidindo, os músculos do pescoço rígidos e os punhos cerrados.
— O que está acontecendo aqui? — perguntei, tentando manter a voz estável, parando a poucos passos da entrada com Taylor e Fernanda ao meu lado.
Ambrose virou o rosto para mim, surpreso.
— Katy? O que você está fazendo aqui?
— Se vocês estão decidindo o que fazer com a minha vida, eu tenho o direito de ouvir — respondi, sustentando o olhar dele.
Dominic deu um passo à frente, quebrando a tensão entre os dois e assumindo a postura ponderada.
— Ela tem razão. — Dom disse com firmeza antes de se direcionar a mim. — Katlyn, o Juan, o Christopher e o Ambrose sugeriram uma ideia para forçar o Estevan a sair da toca. A proposta deles é criar um vazamento controlado de que você saiu da proteção da nossa família e vai a um prédio comercial em Manhattan encontrar a Tiffy…
— Tiffy, Dominic? — Taylor o interrompeu irritada.
— Agora não Taylor! — ele a repreendeu e continuou. — A ideia é fazer você aparecer sem escolta aparente. A intenção é usá-la como isca viva para que o Estevan tente agir e seja pego em flagrante por nós.
O ar sumiu dos meus pulmões. O chão pareceu sumir sob os meus pés. Isca viva.
Damien interveio da sua mesa, a voz mansa e protetora.
— Mas você não é obrigada a nada, Katlyn. Ninguém aqui vai te forçar a dar um único passo para fora desta mansão se você não se sentir completamente confortável.
Gael deu um passo à frente com seriedade.
— Se você topar, eu estarei à paisana na sua cola em cada milímetro do trajeto. Eu não saio do seu lado por nada.
Bruno soltou uma risada ríspida, cheia de puro veneno, e passou a mão pelo rosto visivelmente furioso.
— Vocês estão se ouvindo, caralho?! Vocês perderam a porra do bom senso?! — ele se virou para Dominic, fuzilando o chefe com o olhar. — Você vai mesmo entrar nessa palhaçada, Costello?! Vai concordar em empurrar essa mulher para a mira de um psicopata?!
— Abaixa a bola, Coletti! — Ambrose avançou um passo furioso na direção dele. — Eu já disse para você não se meter! Essa porra não é da sua conta!
— É da minha conta sim quando vejo um bando de inconsequentes tratando uma vítima como pedaço de carne para atrair predador! — Bruno rosnou de volta, os olhos faiscando em fúria cega.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar