Capítulo 92 — Então me queira
Ambrose Blair
Levei a Fernanda ao hospital e ela foi calada o caminho todo. Em alguns momentos, eu a pegava me olhando, mas quando eu retribuía o olhar, ela fugia. Quando viu o hospital para o qual eu a estava levando, ela entrou em desespero: “Eles não vão me aceitar”, “Eu não tenho dinheiro”, “Deus, Ambrose, vou ter que deixar meus rins aqui para pagar”.
Para cada frase dela, minha vontade era de rir, puxá-la para mim e dizer: “respira e deixa que eu cuido de tudo”. Mas resisti. Eu percebia que tudo sobre a Fernanda tinha que ser medido. As cicatrizes dela não eram só as físicas, que estavam visíveis naquele momento; havia marcas profundas em sua alma, e isso só me dava mais vontade ainda de cuidar dela.
O atendimento se encerrou e o diagnóstico foi simples, se olharmos por tudo o que ela passou: duas costelas trincadas era praticamente nada. O tratamento: repouso, medicação e exercícios respiratórios. Saímos do hospital e entramos no carro. Assim que me acomodei ao volante, ela disse:
— Você pode me deixar na estação de metrô; não precisa atravessar a cidade para me levar para casa. — Eu não liguei o carro; eu apenas a encarei, e ela continuou falando: — E sobre os valores que pagou, eu pago de volta, eu prometo. Pode levar um tempinho, mas você me passa sua conta e eu vou te mandando o dinheiro.
— Não precisa me devolver valor nenhum. A conta já está paga, e assunto encerrado.
— Você não precisa pagar... quer dizer, você já pagou, mas não é responsabilidade sua — ela disse, firme.
— Tornou-se minha responsabilidade a partir do momento em que eu ofereci te trazer ao hospital e assinar a ficha como seu responsável.
— Eu sei, mas você não… — Levei a mão até o rosto dela, o segurando com carinho, a fazendo se calar no mesmo instante.
— Querida, escuta bem o que vou dizer. — Ela me olhava com atenção, mas eu via um brilho em seus olhos. — Eu vim até aqui porque eu quis, paguei porque eu quis, e você não me deve nada. Fui claro? — Ela assentiu com um aceno. — Ótimo — concluí, e dei um beijo em sua testa antes de afastar minha mão do seu rosto.
— Pode me deixar no metrô, por favor?
— Não — respondi, sem hesitar, e ela me olhou confusa. — Vou te levar até sua casa, você pega umas coisas para passar o final de semana comigo em Hudson Valley. Vamos passar também na farmácia para providenciar os remédios.
— Como é? — ela me perguntou, a confusão ainda mais evidente em sua voz agora, eu não resisti e sorri.
— Jura mesmo que vai me fazer repetir? Você me parece uma garota esperta, acho que entendeu muito bem o que eu disse.
— Para com isso, Ozzie. Minha pergunta não é sobre o que disse, e sim sobre o significado do que disse.
— Fer, significa que vou cuidar de você até ter certeza de que está bem. — Voltei a segurar seu rosto e, desta vez, o acariciei com meu polegar. — Agora para de tentar entender tudo e só aceita o que eu estou te oferecendo.
— Mas eu ainda não entendi o que você está me oferecendo… — a voz dela saiu baixa, mas sincera. Encostei minha testa na dela e a vi fechar os olhos.
— Eu também não sei… — respondi com a mesma sinceridade que ela. — Só sei que não quero deixar você ir, não quero te deixar sozinha. Eu só quero cuidar de você. — Ela abriu os olhos e me perdi naquele verde.

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