Acordei com o som das janelas escancaradas e o quarto banhado por uma luz quase ofensiva. O frescor da manhã era uma afronta ao cansaço que ainda habitava meu corpo, especialmente depois da noite anterior, que Alexander parecia decidido a transformar em uma sessão de tortura — da qual ele claramente saíra como o vitorioso.
Olhei para ele, impecável em um terno tão elegante que parecia moldado por deuses alfaiates. Ele ajustava os botões de punho com a concentração de alguém prestes a entrar em uma batalha épica — ou, no caso dele, em uma reunião de negócios ou… uma visita à prisão, claro. Porque era isso que faríamos hoje: ver Mattia.
— Está acordada? — Ele perguntou, sem sequer olhar para mim, com o tom neutro que só ele conseguia transformar em algo cheio de expectativa.
Revirei os olhos. Se ele estava assim tão sério, era meu dever tornar as coisas mais interessantes. Levantei-me e, sem me importar com o que a luz do dia pudesse revelar, caminhei até ele. Enlacei meus braços ao redor de sua cintura, encostando o rosto em suas costas, enquanto ele me encarava pelo reflexo no espelho.
— Sabe, sonhei com aquela época em que estávamos de péssimos termos antes do noivado. Parece que eu sempre te dei trabalho, Alexander. Você tem certeza de que ainda me ama?
A reação dele foi um suspiro curto, seguido de uma resposta que só poderia vir de um homem como ele.
— Você está muito ociosa hoje, Charlotte. Eu não te castiguei o suficiente ontem?
Meu rosto esquentou. Aquele homem tinha um talento especial para transformar uma provocação inocente em algo que sempre me desestabilizava.
Apertei meu abraço ao redor dele, recusando-me a soltar. Era um pequeno ato de desafio, e ele sabia disso. Depois de alguns segundos de silêncio e um olhar derrotado no espelho, ele finalmente suspirou mais uma vez, rendendo-se.
— Sim, ainda te amo muito — disse, com o tom firme e profundo que sempre fazia meu coração bater mais forte.
Dei um beijo suave em suas costas antes de me afastar, satisfeita.
— E eu também te amo, Alexander. — Caminhei para o banheiro, tentando disfarçar o sorriso em meu rosto.
No espelho do banheiro, minha expressão mudou rapidamente. As marcas deixadas por Alexander na noite anterior estavam mais visíveis do que eu imaginava. Passei os dedos por elas, lembrando-me de como cada uma fora criada – entre protestos, risadas e suspiros. Suspirei, resignada, e fiz o meu melhor para escondê-las com maquiagem.
Quando me juntei à vovó na mesa do café da manhã, ela mal esperou até a segunda mordida para soltar sua observação perspicaz:
— Um echarpe vem a calhar em certas situações, querida.
Meu rosto ficou vermelho como uma maçã, e imediatamente disparei um olhar acusador para Alexander. Ele, no entanto, parecia absolutamente orgulhoso de si mesmo, ignorando qualquer possibilidade de culpa.
Assim que saímos da mansão e nos acomodamos no carro, não consegui segurar o desabafo.
— Alexander, se você fizer isso de novo, nunca mais deixarei você me tocar! — Minha voz era firme, ou pelo menos eu esperava que fosse.
Ele riu, um som baixo e carregado de autossatisfação, antes de responder:
— Não foi você quem começou?
A audácia! Antes que eu pudesse retorquir, ele soltou o cinto, inclinou-se para mim e plantou um beijo demorado na minha testa.
— Hoje é uma ocasião especial. Quero que algumas pessoas saibam que só eu posso te ter.
Voltou ao volante com a mesma serenidade que um monge meditando, enquanto eu, ainda em choque, tentava processar suas palavras. Ele podia ser um CEO frio e calculista, mas às vezes tinha a maturidade emocional de uma criança com um brinquedo favorito.
Enquanto observava a movimentação ao redor, algo mais me chamou a atenção: a ausência do Sr. S.
O Sr. S. Ele era o homem que estava sempre ao lado de Alexander, o tipo de figura misteriosa que parecia viver nas sombras, mas que nunca deixava de estar presente nos momentos mais importantes. Menor em estatura que os guardas, mas de alguma forma ainda mais imponente em sua presença discreta, ele era como uma extensão do próprio Alexander. E agora, pela primeira vez, ele não estava aqui. Para alguém que sempre parecia estar colado ao meu marido, sua ausência gritava mais alto do que qualquer palavra.
Antes que eu pudesse elaborar mais teorias, Alexander se virou e me encarou através do vidro. Não era um olhar casual. Era fixo, penetrante, como se tentasse transmitir algo que eu não conseguia captar. Depois de um longo momento de hesitação, ele finalmente caminhou de volta para o carro e abriu a porta do meu lado.
— Vamos sair. Agora. — Sua voz estava controlada, mas firme, como quem não aceita ser questionado.
Olhei para ele, depois para os guardas espalhados ao redor, cada um em posição estratégica, e não consegui segurar.
— Alexander, se há algo errado acontecendo, é melhor você me dizer agora. Não vou sair do carro até que me explique.
Minha voz tremia, mas mantive o tom firme. Não era apenas curiosidade. Algo dentro de mim gritava que havia mais nessa situação do que ele queria admitir. Minha fobia de dor, minha eterna companheira, já estava em alerta total, e eu sabia que não conseguiria lidar com o que quer que fosse aquilo sem uma explicação. Eu queria respostas antes de me expor a um cenário que parecia cada vez mais perigoso.
Alexander suspirou, mas não respondeu imediatamente. Em vez disso, se abaixou, levando suas mãos ao meu cinto de segurança. O clique do cinto se soltando ecoou no silêncio tenso entre nós.
Ele estava tão perto agora que eu podia sentir sua respiração, quente e controlada, como se estivesse se esforçando para manter a compostura. Seus olhos encontraram os meus, e o olhar que ele me lançou foi tão intenso que senti como se ele pudesse ver cada pensamento que passava pela minha mente. Meu coração, traidor como sempre, começou a bater mais rápido, e minha respiração acelerou.
“Meu marido é realmente muito bonito”, pensei, quase automaticamente, enquanto tentava manter minha expressão neutra. Mas a proximidade dele, aquele perfume que era exclusivamente Alexander, e o calor que irradiava do seu corpo eram uma distração perigosa. Se não fosse pelos trinta homens ao redor nos observando, eu provavelmente teria esquecido completamente a razão de estarmos ali e o teria beijado sem reservas.
Não sei o quanto Alexander fica tentado perto de mim, mas a julgar pela minha respiração eu estava em sérios apuros agora.

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