Amber
O vento gelado da noite cortava minha pele enquanto eu caminhava para fora da casa, os passos rápidos e determinados. Meu coração batia forte contra as costelas, a adrenalina pulsando em cada célula do meu corpo. Uria estava prestes a entrar no carro, mas antes que ela pudesse abrir a porta, minha mão agarrou seu braço com firmeza.
"Você não vai sair assim," minha voz saiu baixa, mas carregada de tensão.
Ela parou, seu corpo enrijecendo sob meu toque. Lentamente, virou-se para mim, seu olhar carregado de algo que eu não conseguia decifrar completamente. Havia surpresa, mas também uma ponta de irritação escondida sob uma expressão cuidadosa.
"Me solta, Amber," ela disse, sua voz firme, mas sem agressividade. "Essa conversa já foi longe demais."
Apertei ainda mais seu braço, meus dedos tremendo de raiva e confusão. "O que você quis dizer com aquilo? Está me ameaçando?"
Ela suspirou pesadamente, seus olhos se voltando para além de mim, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.
"Não, eu estou te alertando. Você está envenenada pelas mentiras do seu pai," murmurou. "Walter sempre foi um manipulador. Ele me manipulou. Ele te manipulou. E agora está fazendo isso de novo."
Engoli em seco, sentindo um nó apertar minha garganta. "Ele disse que você me deixou na porta dele e sumiu. Que eu não fui nada além de um fardo para vocês dois."
A expressão dela se fechou, e por um instante, vi algo se quebrar em seus olhos. Um lampejo de dor. De algo mais profundo do que apenas ressentimento.
"Ele realmente te disse isso?" Sua voz tremeu, mas foi apenas por um segundo antes de ela se recompor. "Claro que disse. Ele sempre distorceu tudo a seu favor."
"Então me diz a verdade!" minha voz se elevou, um desespero que eu não conseguia conter. "Por que você me deixou para trás? Se não foi como ele disse, então como foi?!"
Ela me encarou, e vi sua garganta se mover enquanto engolia em seco. Algo dentro dela lutava contra essa revelação.
"Porque eu não tive escolha," disse por fim, sua voz tão baixa que mal pude ouvir.
Minha respiração ficou presa. Meu coração martelava em expectativa.
"Eu fugi de casa muito nova," ela continuou, o olhar perdido no passado. "Achei que Walter fosse... alguém diferente. Eu era uma menina tola, e ele me fez acreditar que eu teria uma vida melhor ao lado dele. Mas a realidade foi outra. Ele me violou, Amber, e eu acabei grávida de você."
Minhas mãos começaram a tremer.
"Amber," ela continuou, e dessa vez, seus olhos encontraram os meus, carregados de um peso que me esmagava. "Eu nunca quis que você nascesse naquele ambiente. Nunca quis que você sofresse o que eu sofri. Mas eu... eu não tive escolha sobre nada disso. Eu era muito jovem e achei que estava fazendo a escolha certa."
O chão pareceu sumir sob meus pés.
"Você está dizendo que..." Minha voz falhou.
Ela respirou fundo, como se cada palavra custasse um pedaço dela.
"Você é fruto da pior coisa que já me aconteceu," ela sussurrou, e naquele momento, eu vi a verdade crua e dolorosa se desenhar no rosto dela. "Walter nunca foi um companheiro. Ele foi o pior erro da minha vida."
Meu corpo ficou paralisado.
O sangue gelou em minhas veias.
Eu senti náusea, senti meu peito se comprimir como se o ar tivesse sido arrancado do meu corpo.
"Não..." balbuciei, minha mente se recusando a aceitar.
Ela assentiu, seus olhos marejados, mas sem lágrimas caindo. "Eu era muito nova, Amber. Eu era ingênua e fui enganada. Eu acreditei nele, fugi para viver um sonho... e me vi presa em um pesadelo. Quando consegui fugir, eu estava destruída."
Eu não podia dizer que havia conseguido informações por outro lado.
"Porque eu preciso saber quem é você," respondi, mantendo meu tom firme.
Ela me encarou por longos segundos antes de desviar o olhar.
"Meu falecido marido foi um homem maravilhoso," disse, sua voz voltando a soar serena, mas sem a emoção genuína de antes. "Foi tudo que eu pedi a Deus. Até o dia da sua morte."
Algo na forma como ela disse isso me fez sentir um arrepio estranho.
Ela estava mentindo.
Ou, pelo menos, não estava me contando tudo.
"Amber," ela suspirou, olhando para o carro como se quisesse sair dali o mais rápido possível. "Não é o momento para essa conversa. Eu não devia ter vindo aqui hoje."
Ela deslizou os dedos pelo próprio braço, onde minha mão havia segurado minutos antes, e soltou um longo suspiro.
"Mas eu queria que soubesse que, apesar de tudo, eu ainda sou sua mãe."
Abaixei os olhos, minha mente dividida entre o ódio, a dor e a necessidade de entender.
Ela entrou no carro e, sem mais uma palavra, saiu pelo portão.
Observei o carro desaparecer na estrada, o vento frio batendo contra meu rosto. Meu peito estava apertado, e meu instinto gritava que algo ali estava muito, muito errado. Uria não apenas me contou verdades dolorosas. Ela me contou verdades calculadas. E eu precisava descobrir o que mais estava escondido nas entrelinhas.

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