Helena ainda estava acordada em seu quarto. Não esperava por Eduardo, mas a tensão daquele dia e a conversa com Danilo continuavam ressoando em sua mente.
Um barulho de algo se quebrando, seguido de um som pesado, chamou sua atenção.
Levantou-se depressa e saiu do quarto.
Encontrou Eduardo ao pé da escada. Um vaso estava estilhaçado junto ao aparador, e ele se apoiava no corrimão, com a gravata frouxa e os cabelos desalinhados. O cheiro de álcool denunciava que havia bebido, mas havia algo em seu olhar que não combinava com a aparente embriaguez.
— Eduardo?
Ele ergueu o rosto. Seus olhos estavam frios, e a expressão cansada não conseguia disfarçar a tensão que endurecia seus traços.
— Volte para a cama, Helena.
— Você está bem?
— Estou perfeitamente bem.
Não estava, e ambos sabiam disso.
Eduardo não havia bebido a ponto de perder a consciência dos próprios atos. Pelo contrário, estava lúcido demais, consciente de cada pensamento que o atormentava. O vaso quebrado não foi um acidente. Num impulso deliberado, ele o havia lançado contra o chão, como se precisasse destruir alguma coisa para aliviar a fúria que carregava dentro de si.
Helena se aproximou, preocupada, mas ele afastou sua mão antes que ela pudesse ampará-lo.
— Não preciso da sua ajuda.
A voz ríspida a fez recuar.
Ela nunca o tinha visto daquela forma. O homem sempre impecável, firme, dono de si, agora parecia à beira de perder o controle. Algo grave devia ter acontecido, embora ela não conseguisse imaginar o quê.
— Vou preparar algo para você — ofereceu, cautelosa.
— Não precisa. Volte para a cama.
Eduardo subiu os degraus sem esperar resposta e desapareceu pelo corredor.
Helena permaneceu imóvel por alguns instantes, contendo a vontade de chorar. Por mais que tentasse compreender o homem que havia se tornado seu marido, havia momentos em que ele parecia empenhado em afastá-la de todas as maneiras possíveis.
Ainda assim, ela não conseguiu simplesmente ignorá-lo.
Seguiu para a cozinha e preparou um chá. Era um gesto simples, silencioso, talvez inútil diante de tudo o que os separava, mas era a única forma de cuidado que ainda conseguia oferecer sem precisar fazer perguntas.
Alguns minutos depois, subiu as escadas com a xícara nas mãos.
Parou diante da porta do quarto de Eduardo e hesitou. Nunca havia entrado ali, nem mesmo quando ele estava ausente.
Respirou fundo, bateu levemente e, sem esperar resposta, entrou.
O ambiente era amplo, elegante e impecavelmente organizado. Helena mal teve tempo de observar os detalhes, pois sua atenção se voltou imediatamente para o homem sentado na beira da cama, com a camisa aberta no colarinho e os cotovelos apoiados nos joelhos.
Eduardo ergueu os olhos.
Ao vê-la, seu olhar escureceu, carregado de irritação e de uma tensão que parecia prestes a transbordar.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, com uma lucidez perigosa.
— Vim trazer um chá... Talvez ajude você a se sentir melhor.

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