POV Isadora Ferraz
O despertador tocou às sete, mas eu já estava acordada. Acordada, ansiosa e com o estômago mais embrulhado que meus sentimentos nos últimos dias. Hoje era o dia. Primeira ultrassonografia. E, claro, Olívia estava atolada na editora, com reunião marcada até a alma.
Pensei em ir sozinha. Sério. Me arrumar, pegar o carro, dar um sorriso para a enfermeira e fingir que estava plena. Mas aí me olhei no espelho. Os olhos inchados, a barriga ainda discreta, a insegurança gritando no meu peito.
Não dava. Respirei fundo, peguei o celular e disquei sem pensar.
— Isa? — a voz dele ainda rouca de sono. Meu coração deu aquele tropeço bobo.
— Dante. Oi. Desculpa te ligar tão cedo.
— Está tudo bem? — ele já estava alerta, tenso. Sempre pronto pra apagar incêndios.
— Eu tenho um ultrassom hoje. Primeira imagem, sabe? E a Olívia está presa no trabalho… eu… queria saber se você pode ir comigo.
Silêncio por dois segundos. Longos. Profundos.
— Claro que sim. Onde e que horas?
Simples assim.
***
No consultório, o som abafado de músicas instrumentais pairava no ar como se tentasse distrair mães ansiosas e pais desconfortáveis. Eu estava sentada na beirada da maca, de avental, gel frio na barriga, e Dante segurando minha mão. Ele não falou muito. Mas o jeito como seus dedos entrelaçaram nos meus dizia tudo. Dizia: eu tô aqui. Mesmo que tudo esteja uma bagunça, eu tô aqui.
A médica sorriu, simpática, enquanto ajustava o aparelho.
— Vamos ver esse baby?
Assenti com um sorriso nervoso. Dante apertou um pouco mais minha mão. A tela acendeu. Os ruídos começaram. Meu coração quase saiu pela boca. E então… ele apareceu. Pequeno. Meio borrado. Mas ali. Um serzinho real. Um coração batendo acelerado, mais forte que qualquer palavra dita.
— Aqui está, — disse a médica, apontando. — Sete centímetros. Tudo dentro do esperado. E esse aqui… — ela sorriu — é o coração. Batendo lindamente.
O som preencheu a sala. Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum. Eu chorei. Sem vergonha, sem contenção. O rosto molhado e o peito rasgando em emoção. Dante ficou imóvel por um segundo, e depois levou minha mão até os lábios. Os olhos dele estavam marejados.
— É real. — ele sussurrou. — Você está mesmo... carregando um pedaço de nós.
Não consegui responder. Só olhei pra ele. E pela primeira vez em dias… não havia raiva. Nem mágoa. Nem desconfiança. Só a gente. E aquele somzinho de tambor de guerra vindo de dentro de mim. A médica nos deixou a sós depois, com a foto impressa nas minhas mãos. O papel tremia entre meus dedos. Dante olhou para mim e depois para a imagem, como se quisesse memorizar cada milímetro.
— É o som mais bonito que eu já ouvi. — disse ele, baixo.
Assenti.
— Eu também achei.
E naquele silêncio, no consultório branco e frio, algo quente nasceu. Não um recomeço. Ainda não. Mas uma fagulha. Um e se. Ele me levou até o carro com cuidado. Abriu a porta pra mim. E antes de eu entrar, me puxou com delicadeza, encostando a testa na minha.
— Obrigado por me deixar ver isso. Mesmo depois de tudo.
— Você faz parte disso também. Mesmo depois de tudo.
Ele sorriu. E foi ali, no estacionamento da clínica, que eu percebi… às vezes, o amor não morre. Ele só vira outra coisa. Esperança. Coragem. Ou... batimentos por minuto numa tela preta e branca.
***
O restaurante era elegante, discreto, com cheiro de vinho caro e pratos que vinham em porções quase simbólicas. Mas ali, sentada com Dante, com a primeira foto do nosso bebê dobrada dentro da bolsa, tudo parecia... suportável. Quase bom. Ele pediu vinho, mas só bebeu água. E me olhava como quem tinha um milhão de palavras na garganta, mas só soltava uma de cada vez.
— Eu queria ter te encontrado antes. — ele disse, mexendo na taça sem encostar os lábios. — Antes da dor. Antes dele.
— Mas não foi antes. Foi agora. — falei, firme. — E o agora já vem com consequências.
Ele assentiu. Mas os olhos estavam em mim. Nos meus lábios. Nas minhas mãos. Na minha barriga. Como se tentasse entender o futuro inteiro só com aquele retrato do presente.
— Eu quero estar presente. Não só como pai. Como homem. Como parceiro. Se você deixar.
— Me responde, caralho! — gritou, batendo com a mão na mesa. — Você está grávida e não me disse NADA?!
— Não é da sua conta! — explodi. — Você não tem direito!
— EU ERA SEU MARIDO! — ele urrou. — SETE ANOS! EU TENHO TODO O DIREITO DO MUNDO DE SABER SE VOCÊ CARREGA UM FILHO MEU!
— Não é seu! — a frase escapou como um tiro. E o silêncio que seguiu foi ensurdecedor.
Ele cambaleou como se tivesse levado um soco no estômago.
— …O quê?
— Eu disse… — engoli o choro na marra. — Não é seu filho.
A raiva evaporou dos olhos dele, dando lugar ao puro, nu e cru ódio magoado.
— E você escondeu isso de mim... por quê? — sussurrou, a voz carregada de veneno. — Porque sabe que você ainda é minha. Porque sabe que esse cara nunca vai te conhecer como eu te conheço.
— Você me perdeu, Heitor. Quando tentou me controlar. Me quebrar. Me apagar.
— E foi correndo pra ele? Pra esse moleque de terno?
Dante se aproximou, firme.
— Você precisa ir embora. Agora.
Heitor olhou pra ele como quem olha um inseto. Depois, voltou os olhos para mim. E, naquele momento, eu vi. O homem ferido. O predador encurralado.
— Acha que é o fim, Isa? — ele cuspiu. — Isso aqui é só o começo. Você pode me apagar da sua vida, mas o mundo... o mundo ainda ouve a minha voz.
E saiu. Sem olhar pra trás. Como um furacão que passou, quebrou tudo, e agora promete voltar. Dante sentou ao meu lado. Me abraçou sem dizer nada. Mas eu tremia. Porque pela primeira vez… eu senti medo real do que Heitor poderia fazer agora que sabia da verdade.

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