POV Enzo
Em minutos, todos saíram da casa de Maçãzinha. Alguns mudos. Outros brigando. Era claro que Will havia jogado retirado o pino da granada e jogado em qualquer direção. Cada um que se defendesse como pudesse. Mas eu sabia que alguns ali não tinham defesa.
De início eu não gostava do garoto zumbi. Agora eu odiava, a ponto de querer esganá-lo em praça pública. Ele daria problemas. Muitos problemas. E para mantê-lo longe, só matando. Eu já tinha pensado em mil formas diferentes de matá-lo. Mas em nenhuma delas via alguém me inocentando do crime.
Olhei no relógio é já eram 16 horas. Maçãzinha parecia cansada. E eu sabia que certamente ficou nervosa com a minha presença ali. Ela precisava de um tempo para assimilar ter ganhado uma tesoura de aniversário. Ou a unha do meu filho. E até o anel barato, que o garoto zumbi garantiu ser de ouro. Eu nunca a vi de fones, então fiquei em dúvida se ela realmente usava. Quanto à bolsa... eu não vi a marca. Talvez Maçãzinha tivesse ficado chateada porque não era uma Hermès.
Chamei Davi e ele reclamou. Por algum motivo, meu filho pareceu gostar daquele lugar.
— Você não vai embora sem me dar um abraço, garotinho. — Elói disse, com um sorriso.
Davi e eu não tínhamos o hábito de tocarmos pessoas que não conhecíamos. Ou mesmo demonstrar afeto a desconhecidos. No entanto eu presenciei meu filho abraçar o pai de Maçãzinha, com um sorriso no rosto.
— Quando você vier de novo, farei muitas batatas fritas. — garantiu Elói.
Davi me olhou:
— Papai, quando vamos voltar?
Eu não soube o que responder.
— Sempre que quiserem — Elói disse — Sempre serão bem-vindos na minha casa.
— Ah, vem cá meu mini gentleman — Will pegou o meu filho no colo e o encheu de beijos.
Aquilo era totalmente estranho. E contraditório com os nossos hábitos.
Assim que Will soltou Davi, ele correu em direção à Maçãzinha e agarrou-se a ela:
— Posso vir outra vez? — perguntou, levantando a cabeça para olhá-la, ainda com os braços envolvendo-a.
— Sempre, meu amor. Sei que aqui é tudo diferente do que você está acostumado, mas é muito bem-vindo. E será bem tratado sempre.
Apertei a mão de Elói:
— Obrigado por me receber.
— Foi um prazer. Adorei o seu vinho arrematado em leilão.
— Ah — lembrei do que ele havia feito com o meu vinho que custou algumas centenas de dólares e sorri — da próxima vez trago um melhor ainda.
— Lembre-se: tinto.
— Não irei esquecer.
Olhei para Will. Antes que pudesse lhe estender a mão, o irmão de Maçãzinha se agarrou ao meu pescoço:
— Você foi incrível hoje. — sussurrou no meu ouvido.
Eu não soube o que dizer. Não sabia porque ele disse que fui incrível. Ele, por sua vez, destruiu o aniversário de Maçãzinha.
— Ainda assim — senti seu hálito morno na minha orelha — minha irmã não precisa de um herói que não usa capa e mete gostoso. Ela precisa de respeito. E valorização. Fê é uma pessoa incrível. E merece o que há de melhor na vida. Inclusive todo o amor do mundo.
“Amor”. Por algum motivo a pronúncia daquela palavra me deu um frio na barriga. Lembrei-me das palavras de Zadock: “perdição”, “inferno na terra”, “te tornará vulnerável”, “te consumirá até a alma”. Ainda assim você desejará ficar perdido para sempre.
Maçãzinha havia perguntado o que ela significava para mim. Nossos olhos se encontraram e meu coração errou a batida. E aquilo só acontecia quando eu estava com ela. Meu corpo ficava diferente. O sangue parecia correr mais rápido nas minhas veias. E o mundo parecia ficar mais... leve. Mesmo quando eu achava que ela oferecia perigo, ainda assim era bom ficar ao seu lado.
Eu sabia o que era amor. Eu sentia aquilo pelo meu filho. Porém o que eu sentia por ela não podia ser amor. Porque era diferente do que eu sentia por Davi. Era paixão. Doentia, avassaladora. Eu a desejava com cada célula do meu corpo. Mas era algo físico. Obsessivo. Nada além disso.
— Vou... levá-los até a porta. — Maçãzinha anunciou.
Ela levou Davi e eu em direção a porta e a abriu. Will me chamou:
— Ei, Enzo.
O encarei.
— Quando você vai nos convidar para almoçar na sua casa?
— Ele está brincando! — Maçãzinha disse antes que eu desse uma resposta.
— Vou verificar a minha agenda, Will. E assim que der, peço para meu assistente te dar um retorno sobre o pedido.
Will arqueou uma sobrancelha. Abriu a boca, mas conteve o que quer que pensou em dizer.
Maria Fernanda abaixou-se e deu um beijo na bochecha de Davi:
— Acho que vou usar o seu presente hoje mesmo — sorriu e apertou sua bochecha.
— Eu te amo, Maria.
Eu tinha dúvida do que sentia por ela. Meu filho, pelo visto, tinha descoberto bem antes de mim seus sentimentos.
— Eu também te amo, Davi.


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