POV Maria Fernanda
Enquanto meu corpo se contraía em cólicas fortes, eu tentava imaginar a cena do “Holi” indiano. Quando fechava os olhos, me via com Enzo, nosso bebê e Davi, coloridos de pó de todas as cores.
Porém, quando meus olhos abriram, tudo que eu via era a claridade das lâmpadas que pareciam competir em velocidade com a maca que se movia com rapidez pelos corredores.
— E meu menino... — perguntei à enfermeira que estava ao meu lado, ajudando a conduzir a maca. — como ele está?
— Ainda não sabemos, senhora... o ultrassom logo será feito e...
— Davi — fui mais clara — Davi Asheton... como ele está?
— Não temos notícias. Sinto muito.
Não me importei mais que as lágrimas me consumissem. Já fazia um tempo que eu não chorava tão copiosamente. Na verdade, eu sabia exatamente quando havia sido a última vez que aquilo aconteceu: no funeral da minha mãe.
Eu tive uma infância baseada na perda. Dolorida, saudosa. Sempre me perguntava porque a minha mãe teve que partir tão cedo. E por qual motivo meu pai, mesmo junto de nós, parecia estar morto, embora seu corpo se movimentasse.
Funerais sempre foi algo que me tocou profundamente. Eu não lembrava do funeral da minha mãe. Mas me remetia a dor profunda daquele dia. Talvez, assim como Davi, minha mente infantil decidiu bloquear parte daquele momento para poder seguir a vida sem carregar a dor tão palpável.
Eu não queria perder meu bebê. E não queria perder Davi. O sangue em seu rostinho poderia ser por inúmeras situações. Mas o fato de estar desacordado era intrigante.
Fiquei alguns minutos sobre a maca em uma sala. Eu fazia perguntas, mas ninguém respondia. Só mandavam que eu me acalmasse. Pedi que uma das enfermeiras me ajudassem a sentar e assim fizeram.
Aquele simples gesto fez com que eu me sentisse melhor e a dor na cabeça diminuísse um pouco.
Quando a porta se abriu, a mulher que entrou tinha uma postura firme e no jaleco havia um crachá pendurado escrito “Enfermeira chefe”.
— Senhorita Lorenz, eu sou a enfermeira responsável pelo seu atendimento. Vou explicar exatamente o que vamos fazer, está bem?
Assenti. Eu tinha mil perguntas para fazer, mas imaginei que antes dos exames ninguém me tiraria dúvida alguma.
— A senhorita sofreu uma queda de escada com impacto na região lombar e abdominal. Como há suspeita de gestação, precisamos avaliar três pontos principais: trauma físico, sangramento e condição gestacional.
Assenti de novo, sem falar nada. Eu estava muito nervosa e temia não me fazer entender através das palavras.
— O médico já solicitou um hemograma completo, dosagem de beta HCG, ultrassonografia abdominal, avaliação da pressão arterial.
— Qual a probabilidade — minha voz foi tão frágil que até eu tive pena de mim mesma — de o meu bebê ter resistido?
A enfermeira manteve o tom técnico, com neutralidade:
— Uma queda pode provocar descolamento de placenta, sangramento uterino, ameaça de aborto ou apenas um trauma sem complicações. Neste momento, ainda não podemos afirmar nada. Por isso, o obstetra foi acionado para avaliar especificamente a parte gestacional.
— Estou sangrando — falei, tentando me manter calma enquanto olhava para o sangue que manchava o meu jeans claro.
— É preciso levar em conta a intensidade e frequência do sangramento. Então, tente não se preocupar com isso. Como estão as cólicas?

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