Michael entrou na sala. A enfermeira me olhou com piedade e saiu.
O silêncio tomava conta da sala branca. Eu conseguia ouvir o som das nossas respirações.
Eu sabia que não era uma atitude que Michael tomaria com qualquer paciente. Mas ele me abraçou. E eu correspondi, deixando as lágrimas escorrerem mornas pela minha bochecha.
Esperei pela notícia que viria de seus lábios, imaginando o quanto devia ser difícil para ele me dizer aquilo.
Michael entrelaçou os dedos nos meus e ficou de frente para mim na maca.
— Eu sinto muito, Fê. — alisou o dorso da minha mão.
— Então... é agora que você dá uma das piores notícias da minha vida? — tentei sorrir, sabendo que a constatação do que era óbvio me devastaria.
— Eu soube no momento que a vi naquele dia... que você estava grávida. Creio que tenha sido a roupa que você usava que não escondeu o volume da barriga. E pela altura uterina e o tempo que imaginei que tivesse de gestação, me passou pela cabeça que fossem gêmeos.
O encarei, sentindo meu coração acelerar ainda mais:
— Gê... meos?
Michael franziu a testa a arregalou levemente os olhos:
— Você... não sabia que eram gêmeos?
Gêmeos? Eu estive grávida de gêmeos? A dor que parecia insuportável, passou a ficar ainda pior.
— Eu não havia consultado ainda. Iria iniciar o pré-natal... na próxima semana.
— Jamais passou pela minha cabeça que um dia eu fosse te atender... principalmente nessas condições.
Abaixei a cabeça:
— Gêmeos? — ainda estava incrédula.
— Gêmeos fraternos.
O olhei:
— Dois sacos gestacionais e duas placentas diferentes. Isso? — eu ainda lembrava de algumas coisas da faculdade.
— Sim. Cada bebê estava em um saco gestacional separado. A queda provocou um descolamento em um desses sacos, e infelizmente o embrião daquele lado não resistiu. O outro bebê está em um saco diferente e continua com batimentos e desenvolvimento normais. Vamos acompanhar de perto, mas por enquanto ele está seguro.
Abri a boca, mas minha voz falhou. Limpei as lágrimas e o encarei.
— Sim, um dos bebês está vivo, Fê. Eu chamaria isso de... sorte.
— Sorte? — minha voz saiu num fio.
— Você ainda tem uma das crianças, Fê. Sei que dói a perda, mas ainda está grávida. E, embora tenhamos que fazer um acompanhamento mais frequente, a gestação pode seguir normalmente.
Cada palavra de Michael parecia atravessar o meu coração. Ele chamara de sorte. Eu chamei de castigo. Carreguei dois bebês dentro de mim e não sabia. E agora, só restara um.
Minha mão foi instintivamente para a barriga, tentando sentir a diferença ali dentro. As lágrimas vieram silenciosas, não de desespero, mas de um luto íntimo, quase secreto. Apertei a barriga com as duas mãos, como se precisasse proteger o que restava. E ao mesmo tempo me despedir do que não pôde ficar.
— Eu ainda tenho um bebê — engasguei, incerta se deveria realmente ficar feliz com aquilo, como se comemorar fosse um ato de crueldade contra o bebê que partiu.
Eu não sabia como reagir àquilo tudo. Era uma mistura de alívio e luto dentro do meu peito. Sentimentos contraditórios, que pareciam querer me punir.
— A queda... que causou a perda? — parece que eu precisava confirmar se aquele foi o motivo pelo qual eu abortei um dos bebês.
— Não se culpe, Fê. Quedas podem desencadear esse tipo de descolamento, mas também podem acontecer sem nenhum motivo aparente. Agora, o mais importante é cuidar de você e do bebê que continua aqui.
— Eu... não sei se devo ficar feliz ou triste. — fui sincera, lembrando que um dia fomos amigos e não só meros conhecidos.
— Feliz! Você deve ficar feliz, Fê. Ainda tem um bebezinho se desenvolvendo dentro de você.
— Dói saber que ele se foi... sem ao menos eu conhecê-lo.
Michael me abraçou. E me dei ao direito de chorar em seu peito, lamentando a perda do meu bebê.

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