Deus, eu já nem lembrava mais o contesto do que estava falando. E com ele me chamando de “Maria Fernanda” eu simplesmente me perdia em qualquer coisa, até na minha própria existência.
— Ela estava falando sobre um filme em que a babá se infiltra na casa de uma família para destruir a harmonia da casa... — uma delas começou a explicar.
— Não... na verdade ela queria se vingar. — tentei me defender e explicar os fatos de forma correta.
Mas que fatos eu tinha que explicar, afinal? Era só a porra de um filme. Pronto!
— Se vingar de que? — ele perguntou.
Levantei os olhos em sua direção e o encarei:
— O senhor... realmente está interessado nessa história? É só... um filme.
— Sim, eu estou interessadíssimo. Me conte, por favor. Você parou na parte de... vingança.
— Ok, vamos lá — respirei fundo, sabendo que ele queria muito mais saber como eu me saía contando do que com a história em si — Claire é agredida por seu médico e o denuncia à Polícia. Mas em vez de ir para a prisão, o acusado comete suicídio. O choque da morte do médico provoca em Peyton, sua esposa, um aborto espontâneo... — o olhei, incerta se ele realmente queria que eu continuasse.
— Continue... não pare na melhor parte. — debochou. — Certamente é agora que Peyton finge que é uma babá e se INFILTRA na família. — o “infiltra” soou sério, pesado.
— Sim, o senhor está certo. Enlouquecida de raiva pela dupla perda, Peyton se passa por babá e entra na casa da família. Ela planeja acabar com a vida de Claire, seduzindo seu marido até finalmente matar a mulher que ela acredita ter arruinado a sua vida. Mas... isso é só um filme.
— Gosta de filmes, Maria Fernanda?
— Na verdade... não muito. — falei a verdade. Afinal, eu realmente não era uma viciada em assistir filmes.
— Sim... assim como não gosta de sair à noite e não tem nenhum meio de diversão.
Estreitei os olhos, confusa. O que ele estava tentando dizer?
— Na verdade o assunto aqui nem era sobre o filme em si... e sim sobre... — ok, me defender talvez prejudicasse as minhas concorrentes. Então era melhor me calar.
— Sobre... — ele me encarou.
— Nannygates. — não me contive.
O homem se moveu sem pressa pela sala e sentou-se confortavelmente num sofá à nossa frente. Depois me analisou demoradamente antes de perguntar:
— Agora você quer falar sobre escândalos de babás?
Engoli em seco. Como ele sabia daquela porra? Porque eu não sabia nada até aquelas mulheres me falassem sobre aquilo.
— Na verdade, eu não...
— Qual a sua opinião sobre infiltrar-se como babá em casas de pessoas inocentes, Maria Fernanda?
Arqueei a sobrancelha:
Engoli em seco. Eu não tinha respostas para dar.
— Maria Fernanda? — ele insistiu, dizendo meu nome como se eu fosse sua amiga de infância.
— Eu... esqueci de dizer que... eu não reajo bem sob pressão. — levantei, atordoada — Me desculpe por qualquer coisa, senhor.
Dei dois passos e ele falou num tom alto demais, quase me assustando:
— Aonde você pensa que vai?
Como assim? Aquilo queria dizer que eu não estava fora?
— Eu só... ia... ao... banheiro. Se me der licença... preciso muito. — aquele homem era louco e era melhor entrar na loucura dele.
Maldita hora que mandei aquele currículo. Maldita hora que atendi o telefone quando me disseram que eu tinha sido selecionada. Maldita hora que eu decidi ir naquela boate. Maldita hora que eu transei com aquele estanho... lunático.
Respirei fundo e mantive a compostura. Afinal, eu precisava do emprego. Não era uma vaga qualquer. Era um emprego que pagaria um salário que eu não cogitava ganhar num ano de trabalho em qualquer outro ramo.
— Posso ir? — perguntei — no sentido de... se eu quiser voltar para a entrevista coletiva depois...
Ele levantou calmamente e veio na minha direção. Estremeci quando parou a alguns centímetros de mim e sussurrou no meu ouvido:
— Eu já entendi que você gosta de ir a banheiros, senhorita Lorenz. A questão aqui é... você vai sabotar o sistema e me dopar de novo?

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