— O que... disse? — franzi a testa, atordoada.
Percebi quando ele engoliu em seco, mas manteve o olhar fixo no meu:
— Eu disse que já entendi que você gosta de ir a banheiros. E se vai ensaboar e lavar bem as mãos.
Arqueei uma sobrancelha e balancei a cabeça exageradamente, a fim de remexer o cérebro para ver se ele voltava para o lugar. Eu tinha certeza que ouvi algo como SABOTAR e DOPAR. E agora ele vinha com... ensaboar e lavar?
— Eu... entendi dopar e...
Abri a boca para questionar, mas ele me cortou:
— Deve ser seu transtorno do processamento auditivo.
Porra, será que ele não tinha entendido que aquilo havia sido só uma desculpa esfarrapada?
— Irei sim... lavar bem as mãos e ensaboar... — me ouvi dizendo, tentando manter a calma.
— Sou um pouco maníaco com limpeza.
— Só limpeza? — não me contive.
Parecia que ele era maníaco com qualquer coisa.
— Poderia ser mais clara, senhorita Lorenz?
Agora eu voltava a ser “senhorita Lorenz”?
Suspirei:
— Posso ir ao banheiro? Eu... realmente preciso muito.
Me encarou novamente por alguns breves segundos antes de concordar:
— Vá.
Quando saí daquela sala, parece que voltei a respirar. O que as pessoas não faziam por dinheiro! E isso incluía eu, aceitando aquele trabalho que parecia tão simples, não fosse aquela entrevista completamente louca.
Aquele homem, fora do ambiente noturno em que o conheci, era estranho pra caralho. E fugia de todos os padrões. E eu ainda não conseguia decifrá-lo. E o correto seria nem tentar, já que alguns pontos iam ficando bem claros ali: ele era casado, tinha um filho e, se tudo desse certo e Deus me ajudasse, seria o meu chefe.
O problema é que eu sempre fui curiosa com relação a tudo que fugia do padrão. Pessoas previsíveis sempre me entediavam. E por isso aquele estranho gostoso me intrigava tanto.
Eu passei anos da minha vida tentando me encaixar em padrões, mas nunca deu certo. Letícia, minha prima, sempre foi vista pela minha família com alguém em quem eu deveria me inspirar. Era bem difícil me inspirar numa pessoa que fez uma viagem para outro país e me trouxe de presente uma pintura de artista de rua, um azulejo com a imagem de uma praia linda com a frase: “Eu fui para País del Mar. Você não”. Achei que pudesse ser uma brincadeira quando recebi aquilo. Mas não. Infelizmente era mesmo um presente.
Todo mundo sempre soube que eu era apaixonada por Michael, na escola, na nossa família, entre nossos amigos. E acho que até ele sabia, mas fingia que não. Tanto que na infância, fazíamos promessas de amor e futuro juntos.
Quando eu tinha dez anos, Letícia me perguntou:
— Você gosta do Michael?
A nannygate seria eu, sem dúvida. Eu era virgem. Mas não burra. Caralho, eu estudei enfermagem. E sabia muito bem o que era camisinha e para que servia. O que passou na minha cabeça quando decidi “dar” para um estranho na cabine de um banheiro e não usar nenhum método contraceptivo?
Me olhei de novo no espelho. Não sabia o que era pior: estar “G” ou ter pego uma IST.
Passei a mão pelo meu rosto, com força. Eu contaria para ele algum dia? Eu teria coragem de fazer um exame para confirmar? Eu não tinha nem como me sustentar, como daria conta de sustentar uma... criança?
Eu sabia que o amor não provia. E também era ciente de que não tiraria aquela coisinha de dentro de mim.
Lembrei que tinha prometido a mim mesma que não iria pensar naquilo. Então decidi voltar para a sala de entrevista fingindo que estava tudo bem e eu era só uma candidata e não a pessoa que levava um pedacinho daquele homem lunático e esquisito dentro de mim.
Desculpei-me pela demora que não teve, de forma educada e sentei-me de volta num dos sofás confortáveis.
Será que era uma boa hora para perguntar o nome dele?
Por que fui tão burra de ir ao banheiro e não pesquisar no G****e? Ah, sim, eu tinha que ficar olhando a minha barriga no espelho!
Respirei fundo, cruzei as mãos no colo, para que ninguém percebesse o meu nervosismo, já que o senhor ilusão de ótica parecia querer me deixar embaraçada o tempo todo, e fui observando as outras candidatas se apresentarem, como se estivessem num programa de talentos.
— Meu nome é Shirley Yanes. Sou modelo — disse a primeira loira de olhos azuis e tatuagem de coração no dedo anelar, sorrindo para o possível empregador como se o emprego fosse só um detalhe.
Modelo? Eu tinha entendido direito? Por um momento achei que a questão do processamento auditivo que eu tinha inventado até fosse real. Mas daí lembrei que não era.
— Já desfilei, inclusive, para grifes conhecidas. — completou, como se fosse a sua Pós-graduação.

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