Mais uma vez Davi tinha entendido tudo errado. E eu teria problemas depois.
Ainda assim, tê-lo de volta era muito bom. O abracei com força e disse:
— Também senti muito a sua falta. Mas... não nos casamos.
Davi abriu a boca para falar, mas o som horrível daquela máquina ligando me fez dar um salto, apavorada. Senti como se estivesse dentro de um liquidificador.
Um solavanco sacudiu meu corpo quando as pás lá em cima começaram a girar. O barulho tomou conta de tudo, e um zumbido agudo pareceu furar meus tímpanos. Um tremor constante veio do banco, subiu pela espinha e embaçou minha visão.
Quando aquela coisa se ergueu, meu estômago se contraiu e deu sinal de vida e o chão sumiu. O vento começou a bater no vidro e o cheiro leve de combustível se espalhou. Parecia que eu estava flutuando dentro de uma lata gigante. Era a sensação de estar no alto de uma montanha russa, antes que o carrinho deslizasse pela curva em looping.
Estremeci o corpo e Davi me abraçou com força:
— Não tenha medo, Maria. Eu não vou deixá-la sozinha.
Como ele sabia que eu estava com medo?
Peguei na mãozinha dele e fechei os olhos, tentando não deixar meus lábios tremerem.
— Precisa se acostumar, amor! — Enzo sussurrou no meu ouvido — Teremos muitas viagens pela frente. Você ainda nem conheceu o meu jatinho.
Abri os olhos e o encarei, furiosa.
— Eu sei que parece assustador, mas o helicóptero é um dos meios de transporte mais seguro. — Enzo explicou, pegando a minha outra mão — 2024 foi o ano mais seguro da história nos Estados Unidos, com 77 dias sem nenhum acidente.
— Setenta e sete dias? Você só pode estar brincando! Isso é muito acidente. — fiquei pasma.
— Acredite, não é. Claro, não é tão seguro quanto avião comercial, mas a indústria investe pesado em tecnologia, treinamento e monitoramento. As principais causas de acidente hoje são justamente as que a tecnologia ajuda a evitar. Com uma operadora séria e piloto experiente, o risco é muito baixo.
Não conversamos no curto trajeto. Enzo soltou a minha mão assim que deu a explicação sobre segurança, a qual não me convenceu. Davi, por sua vez, mante-se junto a mim, segurando a minha mão com força.
Olhei para Shirley, que parecia tranquila e se sentido completamente segura.
Enzo, por sua vez, fechou-se em si mesmo.
Descendo do helicóptero, fomos para o carro. Eu sabia que a casa estava bem próxima. Sentei-me com Davi e Enzo atrás e Shirley na frente, com o motorista. Raramente Enzo deixava que alguém dirigisse por ele. Mas aquele dia era um daqueles raros.
Davi sentou-se entre Enzo e eu. Depois de alguns minutos de um silêncio pesado, meu menininho decidiu quebrá-lo:
— Eu sei que não adianta só fazer a barba para ser o seu marido, Maria.
Arqueei uma sobrancelha, curiosa.
— Também tem que ser forte como o meu pai, para te pegar no colo. — sorriu — Eu vou comer bastante para ficar forte como o meu pai e poder te carregar.
Mordi o lábio, tentando conter a lágrima que ameaçava cair do meu olho. Aquele menino era a coisa mais linda do mundo inteiro.
— Você sabe que... o fato de ter tentado fazer a barba não faz de você um adulto, não é mesmo? — falei. — E que, sendo criança, não pode se casar.
— E para ficar forte tem que comer legumes, verduras e frutas. — Shirley manifestou-se, olhando para nós.

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