Davi deu um sorrisinho maroto, seguiu com a mãozinha na minha e a outra pegou a do pai e assim entramos juntos na casa. Estranho? Muito! Mas vindo dos Asheton, nada precisava fazer muito sentido. Pai e filho tinham transtornos de humor. E sabiam dar amor e carinho ao mesmo tempo que magoavam profundamente.
Eu? Sem saída. Ligada a Enzo Asheton provavelmente pelo resto da minha vida. Na melhor das hipóteses por 13 anos, quando Davi completasse a maioridade.
Eu precisava ver a parte do contrato que falava sobre o casamento e a minha assinatura. Eu lembrava que realmente não li tudo, porque o tal contrato de trabalho mais parecia um livro, de tantas páginas impressas. E, se Enzo quisesse colocar alguma cláusula oculta, certamente teria sucesso, porque eu não fiz questão de ler. Confiei na palavra dele. E na idoneidade da empresa.
Acontece que Enzo não tinha palavra. Mudava de ideia como mudava de roupa. E a empresa? Bem, talvez nunca tenha sido idônea.
Assim que passamos pela porta, deparei-me com Aayush à esquerda, com os braços para trás, o corpo rijo. E duas fileiras de funcionários devidamente uniformizados, o que eu identifiquei rapidamente como cozinheiras, porteiros, seguranças, responsáveis pela limpeza, Pietra, a governanta e...
— Shirley, por favor, leve Davi para o quarto. — Enzo pediu — o auxilie no banho e depois o ponha para descansar.
Ela assentiu, embora certamente tenha ficado curiosa sobre o que estava acontecendo ali. Mas a mais curiosa era eu.
— Chamei todos aqui para comunicar que Maria Fernanda é a minha esposa e carrega o meu filho.
O encarei, incrédula. A minha expressão só não era mais surpresa do que a de todos os funcionários, que, embora pensassem mil coisas, se limitaram a somente assentir sem palavras.
— Maria Fernanda não é mais a babá do Davi. Não é mais uma funcionária. E vocês se reportarão a ela como senhora Asheton. Ela tem total liberdade, como minha esposa, de mudar o que quer que seja nessa casa, seja com relação a decoração, mudanças de rotina... — me olhou — exceto cardápio. Como de costume, voltaremos a seguir as recomendações da nutricionista. E Maria Fernanda terá uma dieta balanceada, conforme orientação médica. Quem ousar lhe dar batatas fritas ou pizza clandestinamente, será demitido.
— Isso é bem injusto. — falei.
— Meu filho se acidentou junto de Maria Fernanda... aqui, nessa casa, praticamente no mesmo horário. As câmeras de segurança não estavam funcionando. E sabem o que é mais engraçado? Isso nunca aconteceu antes.
— Conforme orientação do senhor Enzo — Aayush tomou a palavra — a partir de agora todos que tiverem acesso à casa serão revistados diariamente. Não podem mais carregar celulares, objetos pontiagudos ou qualquer outro item que possa, de alguma forma, causar algum tipo de acidente. Um armário ficará na porta de acesso de funcionários, onde poderão colocar seus pertences. Uma pessoa responsável fará as revistas.
Ninguém se atreveu a falar nada. Nem eu.
— Dentre todos aqui presentes, um apagou o sistema das câmeras de todo o corredor dos quartos principais e da escada. — me olhou de novo, em tom acusatório.
Mas... se ele estava falando para todos, tive a esperança de que talvez pudesse ter dúvida se realmente foi eu quem dopou Davi.
— E, uma última coisa — avisou — tudo que acontecer com Maria Fernanda deverá ser reportado a mim. Saídas, que não ocorrerão, tentativas de suborno para comer coisas não saudáveis, pedidos de farmácia, solicitação de imagens de câmeras de segurança...
— Posse de arma de fogo ou arma branca. — cruzei os braços, furiosa.
Claro que ele não falou, mas pensou.
— Nos momentos ociosos eu posso tentar matar algumas pessoas. — pisquei, com ironia.
Enzo respirou fundo e disse, calmamente:
— Estão todos dispensados.
— Inclusive o Aayush? — perguntei, chateada.
Eu gostava muito de Aayush e se pudesse, poderia ficar 24 horas sabendo sobre os costumes da Índia.

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