Quando me levantei, o sol ainda nem tinha nascido. Maria estava deitada do mesmo jeito ao meu lado na cama do mesmo jeito que a coloquei. Só dava para perceber que estava viva porque o peito se movia com a respiração calma. O sono estava pesado. Imaginei que fosse por conta do cansaço do hospital e tudo que ela passou nos últimos dias.
O celular de Maria Fernanda estava sob a poltrona, ao lado da varanda. Tentei desbloquear, mas pedia senha. Digitei o óbvio: MICHAEL. Senha errada. Mais uma opção de três: Will. Senha errada. Última e eu estava pouco me importando se bloquearia ou não. Digitei Davi. E a tela bloqueou de vez.
Maçãzinha não precisava de um celular, porque através desse meio certamente ela entraria em contato com o garoto zumbi. Peguei o aparelho e botei no meu bolso.
Enquanto ia para o meu escritório, encontrei Pietra.
— Senhor Enzo! — abaixou levemente a cabeça em tom de cumprimento — Acordou cedo hoje.
— Sim, tenho algumas questões a resolver. Leve o café no meu escritório. E assim que a minha esposa acordar, prepare o que ela quiser comer. Leve em conta a lista de alimentos que a nutricionista indicou.
— Pode deixar, senhor Enzo.
Fui para o escritório. Realmente eu tinha algumas coisas para resolver. A questão é que não eram tão importantes. O que eu tinha de mais urgente era deixar imediatamente a cama onde Maçãzinha dormia ao meu lado, ou jogaria por terra tudo que planejei.
Ouvi uma batida na porta e Pietra entrou com uma bandeja trazendo o meu café, do jeito que eu gostava. Ajeitou tudo num canto da minha mesa de trabalho e disse, retirando algo do bolso:
— Senhor, eu encontrei essa caixinha nos pertences da senhora Asheton quando fui peguei as roupas dela para levar para o seu quarto.
Peguei a caixa e fiquei olhando imóvel para o nome: ZOLPIDEM. Meu coração acelerou, o estômago contraiu-se e eu tive vontade de vomitar.
Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, olhei para Pietra:
— Onde você achou isso? Por que só me trouxe agora?
— Estava dentro da mochila dela, num bolso interno. Eu só lhe trouxe porque sei que ela está grávida e temi que esteja tomando algum analgésico e isso pode fazer mal ao bebê. Gestantes precisam ter muito cuidado com esse tipo de coisa.
Retirei da embalagem o blister e verifiquei que das 20 drágeas, 4 haviam sido usadas. Era uma versão de Zolpidem liberação prolongada e na dosagem menor, de 6,25 mg.
Amassei o blister com força até sentir a embalagem machucar minha pele. Encarei Pietra e perguntei:
— Por que você mexeu nas coisas de Maria Fernanda?
Ela arregalou os olhos:
— O senhor pediu que eu levasse tudo para o seu quarto.
— Suma da minha frente, Pietra. Agora. — gritei.
Pietra saiu imediatamente. Apertei tanto o blister que as drágeas se quebraram e esfarelaram. Meu mundo caiu por terra. E toda a crença que, do fundo do meu coração, eu desejei que não tivesse sido ela a culpada.
Maçãzinha era culpada.
Ouvi uma batida única na porta e Aayush entrou. Me encarou por um breve momento e enrugou a testa:
— O senhor... já está acordado?
— Por que a surpresa?
— Geralmente... o senhor não acorda tão cedo. E imaginei que... bem, com a sua esposa e...
— Você não é pago para imaginar. Aliás, eu nem sei por qual motivo você é pago, Aayush. — levantei e fui até ele, parando na sua frente — Por que mesmo eu te pago?
Aayush não disse nada. Abriu a boca e pareceu desistir.
Levantei o Zolpidem deteriorado e joguei no peito dele:

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