Fiquei encarando-a. Maria Fernanda respirou fundo e me olhou. Acho que pela primeira vez ela me viu de verdade. Uma lágrima escorreu pelo canto do seu olho direito:
— Sinto muito, Aayush. Eu amo Enzo. E jamais serei capaz de sentir por alguém o que eu sinto por ele.
Sinceridade. Acho que aquilo era o que eu mais admirava nela. Diferente de Caliana, Maria Fernanda era mais sensata. E amava Enzo, mesmo não querendo ter aquele sentimento.
Aquela mulher era só carinho e amor... por Enzo e tudo que fazia parte da vida dele. Caliana se apaixonou por Zadock porque era exatamente como ele: fria e vingativa. E tudo que Maçãzinha queria era provar a Enzo que nunca fez nada contra ele. Que era inocente. E depois iria partir, deixando-o com a consciência pesada.
Zadock prendeu Caliana para se vingar. Enzo prendeu Maria Fernanda porque sempre a amou, desde aquela boate. Ficou tão obcecado que inventou uma vaga de babá para o seu filho só para que ela pudesse ficar sob seus olhos. Aquilo era amor, avassalador... e a chave que o faria abrir as portas do coração e voltar a viver como uma pessoa normal, entendendo que mundo não girava ao seu redor e nem todo mundo queria vê-lo morto ou prejudicado.
Se eu gostava dela? Sim, me apaixonei, mesmo não querendo. E agi errado, prejudicando-a. Não fui só egoísta. Fui mentiroso e ardiloso.
— Se nunca mais quiser me ver na sua frente, eu vou entender. — falei.
Maria Fernanda demorou a responder. Quando o fez, a língua pareceu enrolar um pouco dentro da boca:
— Se você fizer... o favor que lhe... pedi, fingirei que parte dessa conversa... nunca aconteceu. — disse forma pausada, como se precisasse lembrar de cada palavra.
Era uma boa proposta, embora eu fosse contar a Enzo mais cedo ou mais tarde a verdade.
— Eu... menti mais uma coisa. — sim, se era para contar a verdade, eu deveria contar toda.
— O que mais você mentiu, Aayush?
— Eu... não salvei Zadock Asheton. Foi ele que me salvou. E tudo que sou hoje devo a ele.
— Como?
— Saí do meu país por causa da forte pressão econômica e social da época. Havia uma grande crise de desemprego, causada pela alta competitividade. Foi como se a Índia ficasse exausta. A incerteza política, de certa forma mais restritiva, impulsionou um recorde de migração. Tudo isso fez com que a economia desacelerasse, principalmente depois da pandemia.
— Você veio em busca de emprego?
— Na verdade saí do meu país porque, sendo de família pobre, estudar era um luxo que eu não podia pagar. As universidades públicas eram pouquíssimas e concorridas. E as particulares custavam um absurdo. Eu trabalhava o dia inteiro e tentava estudar à noite, mas o cansaço batia, o material didático era caro, e no fim do mês sempre faltava dinheiro para passagem ou para comer direito. Aí veio a crise, o desemprego subiu e estudar virou algo ainda mais distante. Foi quando ouvi falar de Noriah Norte. Fui incentivado pelas bolsas para estrangeiros de baixa renda. Era minha única chance de ser alguém e proporcionar uma vida digna para a minha família. Larguei tudo, juntei o pouco que tinha e vim. Acontece que aqui as dificuldades continuaram. Os quartos eram caros e tive que dividir espaço com desconhecidos, perdendo o pouco de privacidade que eu ainda tinha. Sempre fui muito calado. O senhor Enzo que me fez falar um pouco mais — sorri — ele fala coisas tão absurdas que não tem como fingir que não as ouviu. E... ele pede minha opinião. E... leva em conta o que eu digo. Isso me fez ter uma proximidade, uma certa intimidade com ele.

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