Quando entrei em casa, meu pai estava na sala, lendo o que parecia uma carta. Assim que me viu, tentou esconder sob o corpo. Me aproximei, dei um beijo na testa dele e perguntei:
— Está tudo bem?
— Sim. E... você está bem? Demorou na entrevista.
Sentei no sofá:
— Foi... tensa. — confessei — mas não desisti. Ainda.
— Vai dar tudo certo, filha.
Olhei para o lado da cadeira, onde alguns centímetros do papel que ele escondeu de mim havia ficado de fora.
— O que é isso, pai?
— Nada! — remexeu-se, incomodado.
— Não gosto que esconda as coisas de mim.
— Não... é nada importante.
— Se não fosse importante, por que você esconderia de mim?
Abri a mão na direção dele, que, a contragosto, me entregou o envelope.
Li rapidamente. Mas entendi bem pouco. Ele havia sido selecionado para alguma coisa de saúde. Mas não ficava claro o que era.
— O que é isso, pai?
— Eu... me inscrevi para um tratamento novo.
— Que tratamento?
— Para... pessoas que perderam os movimentos das pernas.
— O médico disse que é praticamente impossível você retomar os movimentos, pai.
— É algo experimental. Eu... me inscrevi como voluntário.
— Voluntário? São testes, pai. E se algo der errado?
— Se algo der errado eu posso ficar paralítico? — ele riu, sem humor — Ah... eu já sou paralítico. Então, adivinha? Não tem como ficar pior do que já estou.
Respirei fundo:
— Desde quando você se preocupa com isso, pai?
— Acha que eu nunca quis voltar a andar, Fernanda?

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