POV ENZO
Maçãzinha escreveu que queria me ver queimando no fogo o inferno. Mal ela sabia que eu já estava queimando no fogo do inferno há um bom tempo. Mais precisamente desde o momento em que ela passou pela porta da frente da minha casa.
Eu estava lá, jogado no sofá, com um copo de vinho na mão. Por um breve momento lembrei do velho Elói e o do quanto ele gostava dos meus vinhos.
A família de Maçãzinha era bem estranha. Mas sinceros. E era exatamente por esse motivo que eles me deixavam confuso. No meu mundo não havia lugar para sinceridade.
Cresci sendo incentivado a nunca ter caráter. Ao menos não quando se tratava de negócios. Mas como praticamente nunca tive vida pessoal, eu era um mau caráter em tempo integral.
— Papai! Papai! — Davi entrou correndo na sala e se jogou sobre mim. — Eu estava com tanta saudade.
O apertei contra meu peito:
— E eu quase morri de saudade.
— Podemos ver a minha mamãe?
Engoli em seco. Alisei seus cabelos fininhos e sedosos e expliquei:
— A sua mamãe precisa descansar por um tempo.
— Mas eu a cansei? Por que ela não quer me ver?
— Ela quer muito te ver. O problema é que... ela não pode sair de perto da Mary.
— Não? Mas a Mary está sempre na barriga dela. Então mamãe nunca sai de perto dela.
— Pois então... acontece que... Mary nasceu.
Ele saiu do meu colo:
— Mary nasceu! — gritou, girando em torno do próprio corpo — Posso vê-la? Posso mostrar para ela o meu avião? Posso ensiná-la a brincar de carrinho? Ela já deve aparecer nos meus desenhos? Ela vai gostar de mim?
Era muitas perguntas. Tantas que eu mal consegui assimilar.
— Davi — tentei encontrar as palavras — A Mary nasceu muito pequeninha.
— Ela é um bebê, papai. É claro que ela nasce pequeninha. — ele riu, como se fosse óbvio.
— Mas ela nasceu... bem mais pequeninha do que você imagina.
— Mary é uma anã? — ele franziu a testa.
Eu ri. Aquele menino fazia eu rir em meio ao caos:
— Não. Ela não é uma anã.
— Pode me dizer como ela é usando um filme, como a mamãe faz?
Eu assistia poucos filmes. Nunca tive tempo para televisão ou qualquer coisa que me distraísse ou tirasse o foco. Mas desde que Maçãzinha entrou nas nossas vidas, todos os dias tinha um filme. E eram antigos pra caralho.
Eu não gostava. Mas perto dela, tudo parecia bom... mesmo quando não era. Só o simples fato de estarmos junto fazia todo momento ser especial. Até mesmo assistir um filme com uma imagem péssima onde tinha um garoto que dirigia um cortador de grama e a personagem principal se apaixonava por ele.
— Eu... não sei o nome de um filme para dar como exemplo. Só estudei um pouco... sobre a história da Branca de Neve. Nesse caso... você e Mary são anões.
Davi me encarou. Eu não soube o que se passava pela cabeça dele. Ao menos não até ele me abraçar de novo e dizer:
— Você está triste, papai?
Como ele sabia? Era tão óbvio assim?
— Não estou triste. Só estou... com um pouquinho de saudade da mamãe.
— E eu estou com muita saudade — ele sorriu — mas quando a mamãe voltar, iremos dar muitos abraços nela.
— Sim... iremos.
Eu sabia que ter Maria Fernanda de volta era algo que provavelmente não aconteceria. Tive um pouco de esperança quando conversamos no hospital. Ela praticamente deixou claro que me amava, mas que isso não significava que me perdoaria.
A mensagem de que ela queria que eu queimasse no inferno era a prova de que certamente eu entendi tudo errado. E que a porra do número 520 não significava nada a não ser... o 520.
— Eu amo a minha mamãe.
— E eu amo... a sua mamãe também. — sorri — mas... talvez a gente tenha que ficar um tempo só nós dois, como antes.
— Mas eu não quero. Agora nós temos a mamãe. E a Mary. Nunca mais ficaremos sozinhos, papai. — ele alisou minhas têmporas.
Ah, crianças e sua inocência! Eu não tive inocência. E ver aquilo no meu filho me fazia entender que eu não tinha errado tanto na criação dele.
— Mas você gostava quando éramos nós dois, não é mesmo?

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