Depois vestir meu uniforme, que coube perfeitamente, fui exercer a função para qual eu estava sendo paga: cuidar de Davi Asheton.
Pietra me encaminhou para a sala de brinquedos e assim que cheguei no corredor, deparei-me com Shirley saindo pela porta, com Enzo aparecendo logo atrás dela.
Nossos olhares se encontraram brevemente e ele desviou.
— Obrigada por tudo, senhor Asheton. — a voz de Shirley era melosa, quase como o de uma gata no cio. Gatas no cio não falavam. Mas isso era só um detalhe.
— Enzo — ele sorriu para ela — Pode me chamar de Enzo. Nos veremos diariamente. Não há motivos para tanta formalidade. — o olhar foi para mim.
— Pode me chamar de Shirley também. Ou qualquer outro nome que quiser — riu — apelidos também são bem-vindos. Eu já mencionei que trabalhei como modelo?
Antes que eu pudesse ouvir a resposta dele, Davi surgiu no corredor. E quando vi o sorriso dele, pouco me importei com o que Enzo diria. O menino era uma cópia do pai. Mas aquele sorriso era a coisa mais sincera que já vi na vida.
Ele correu na minha direção e abri os braços, recebendo-o junto de mim:
— Você quer conhecer o meu quarto, bebê?
— Bebê? — fiquei surpresa. Só Will me chamava daquela forma.
— Sim... é o apelido carinhoso que seu pai e seu irmão lhe deram — lembrou — posso chamá-la assim também? Eu gosto de você.
Antes que eu respondesse, Enzo cortou:
— Não, Davi. Você a chamará pelo nome... se a senhorita Lorenz autorizar, claro. — cruzou os braços, esperando pela minha resposta.
— Eu... sou a sua babá. Então... eu não acho que me chamar de “bebê” seria apropriado. Até porque você é o bebê aqui — pisquei um olho e apertei o nariz dele, que sorriu — Que tal Maria? Ou Fernanda? Maria Fernanda realmente é um nome longo.
Davi ignorou e disse, empolgado:
— Quer conhecer o meu quarto? — segurou a minha mão.
— Eu... adoraria.
Acompanhei Davi, empolgada para conhecer onde ele dormia. Eu não me importava com o que Enzo faria com Shirley. Afinal, já tínhamos terminado o nosso relacionamento mesmo. E duas vezes naquele mesmo dia.
O quarto do Davi era claro, arejado e acolhedor. As paredes em tons suaves tinham desenhos discretos de estrelas e planetas, criando a sensação de um espaço tranquilo, pensado para uma criança curiosa e feliz.
A cama baixa, com lençóis macios e algumas almofadas espalhadas, dava a sensação de noites bem dormidas e manhãs preguiçosas. No centro, um tapete grande servia de palco para brincadeiras longas, onde carrinhos, livros e peças de montar conviviam em uma bagunça organizada.
Perto da janela, uma pequena escrivaninha guardava desenhos coloridos e lápis usados até o fim. Muitos mostravam figuras humanas de mãos dadas, traçadas com cuidado surpreendente para um menino de seis anos.
Era um quarto que refletia exatamente quem Davi era: um menino doce, gentil e inteligente, cercado de afeto.
Ele foi até a escrivaninha e pegou algumas folhas com desenhos. Me entregou, sorridente:
— Eu desenhei você — apontou para a figura feminina que pegava sua mão, tendo ao centro o que imaginei que fosse ele e do outro lado, o pai. Os olhos azuis denunciavam Enzo. E... éramos os três juntos, como se fôssemos uma família.
Eu tive vontade de chorar. E os motivos eram vários: a carência de Davi por afeto materno. O fato de que talvez, se soubesse, ele futuramente desenhasse o irmãozinho em algum lugar naquela imagem. E o quanto o destino estava sendo filho da puta comigo, por fazer com que eu me apaixonasse pelo pai e pelo filho à primeira vista.
Mas eu não chorei. Respirei fundo e ri:
— Eu estou segurando uma batata frita em todos os desenhos?
— Felicidade em forma de batata frita. — piscou um olhinho, desajeitadamente — Você pode me dar uma batata frita? — sussurrou, como se dizer aquilo fosse algo proibido.
— O seu pai me mataria.
— Papai não mata. Só o tio Zadock. Papai disse que ele sim mata.
Senti um frio percorrer a minha espinha. Aquilo era coisa de se dizer para uma criança?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO