POV Maria Fernanda
O carro entrou por um caminho estreito, ladeado por vegetação densa, e só então a casa apareceu. Eu não disse nada. Não porque não quisesse, mas porque precisava de alguns segundos para assimilar o que estava vendo.
A casa de praia se abria para o mar como se fizesse parte dele. Era praticamente toda de vidro e construída de um jeito que parecia ter estado ali sempre. Dava a impressão de ter sido desenhada para não competir com a paisagem, apenas acompanhá-la.
Davi saiu do carro primeiro:
— A gente costuma entrar por aqui — avisou, com naturalidade, já seguindo pelo caminho de pedras que levava à lateral da casa.
Não havia nada de deslumbramento da parte dele. Nada de surpresa. Ele andava como quem chega em casa depois da escola.
Olhei para Shirley, que retocava o batom, como se Davi não fizesse parte de seu emprego. Só porque era dia e não era seu turno não significava que ela estava de folga. Ao menos eu achava.
O que mais me impressionava era a forma como ela agia com naturalidade, pouco se importando se alguém perceberia sua falta de interesse com relação ao menino.
Respirei fundo. Talvez Shirley tivesse o aval de Enzo e soubesse que no fim, seria a madrasta de Davi e não a babá. Por sorte eu estaria bem longe quando aquilo acontecesse. Ou melhor, não tão longe... só na minha casa. Mas o suficiente para não presenciar os dois juntos.
— Ele adora mostrar o lugar — comentou Aayush, sorrindo enquanto ajudava Shirley com a mala. Sim, uma noite fora e ela tinha feito uma mala como quem viaja para outro país por semanas.
Shirley seguia no celular, nos acompanhando sem prestar atenção. Quase tropeçou nos próprios saltos enquanto subia os pequenos degraus que davam acesso à casa.
Havíamos ganhado os sapatos como parte do uniforme. Mas por algum motivo ela optou por não usá-los naquele dia. Preferiu usar saltos altos para ir à praia. Enfim... cada louco com sua mania. Acho que eu era a mais sensata naquele lugar. Sendo que eu tinha pegado dinheiro com um agiota, estava grávida do meu chefe e no meu pescoço havia um chupão dado pelo meu melhor amigo.
Davi abriu a porta de vidro com a habilidade de quem já havia feito aquilo centenas de vezes.
Assim que entramos, o som do mar invadiu tudo. A casa não tentava isolar o som do vento e das ondas. Pelo contrário, as portas estava todas abertas, as janelas amplas convidavam o ar a circular livremente por todo o espaço interno. Do outro lado da sala, o jardim terminava diretamente na areia.
Praia privativa. Não havia cercas, placas, nem limites visíveis. Apenas o mar começando onde a grama acabava, tranquilo, limpo, silencioso.
Parei por um instante.
— Você vai gostar de ficar aqui — disse Davi, me olhando empolgado. — Dá para ouvir o mar até dormindo.
Sorri, maravilhada:
— Eu já gostei.
Ele assentiu, satisfeito com a resposta, e correu em direção à escadaria, subindo como se fosse a coisa mais fácil do mundo:
— Vou pegar minha prancha — avisou.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, Davi desapareceu no andar de cima.
Olhei para o homem de terno parado ao pé da escada, deixando a mala de Shirley, que agora sentava-se no sofá, parecendo a dona da casa, ainda digitando no celular.
— Eu sou Maria Fernanda. — falei, certa de que ele sabia o meu nome.
— Aayush. Sou assistente do senhor Enzo.
— Seu nome... é diferente.
— Indiano.
— Você nasceu lá?
— Sim.
Eu tive vontade de perguntar como ele veio parar ali, mas não quis invadir a sua privacidade.
— O senhor Enzo chegará em breve — avisou — enquanto isso, sigam com as regras e os cuidados com Davi. Vou pedir para a governanta organizar os quartos de vocês — olhou para Shirley, que sorria para a tela do celular, totalmente absorta na conversa virtual.
— Pietra? — eu quis saber.
— Não. Há uma governanta específica para essa casa.
— Por que... viemos parar na praia... do nada? — perguntei — O senhor Asheton... costuma vir muito para cá?

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