Eu ri, sarcástico:
— Boa-noite Cinderela, encontro “casual” com Davi, batata frita que chamou de felicidade, afogamento proposital para que pudesse ser salva por mim...
— Você precisa se tratar — ela não me deixou terminar — procure um terapeuta antes que seja tarde demais e não tenha mais solução.
— Eu vou ao terapeuta duas vezes na semana. — eu ri, embora estivesse sendo sincero. Mas só para comprovar o quanto ela não sabia nada sobre mim e estava errada sobre eu não me tratar.
— Me dê o nome do seu terapeuta, por favor. Vou anotar para nunca consultar com ele. E não indicarei a ninguém. Porque certamente é um péssimo profissional.
Respirei fundo. Ela conseguia me irritar profundamente.
— Como ousa?
Ela virou de costas e começou a andar, levantando a mão e me mostrando o dedo do meio. Caralho! Como Maçãzinha tinha coragem de fazer aquilo?
— Maria Fernanda... — gritei.
— Está achando ruim, me demita. — falou sem sequer me olhar, seguindo seu caminho — não vai encontrar ninguém melhor que eu para cuidar do Davi. E você sabe disso.
Quando ela chegou ao final do corredor e dobrou, sumindo entre a parede, senti um vazio horrível. E descobri que eu precisava da criptonita para sobreviver. Eu gostava da ousadia daquela mulher. E foda-se o terapeuta!
Como eu faria para vê-la nas horas em que ficasse naquela porra de corredor com os meus funcionários? E se algum deles se aproximasse dela? E se houvesse flerte? E se ela gostasse?
Dei um soco na parede, gemendo de dor logo em seguida. Olhei para os meus nós dos dedos vermelhos e praguejei:
— Caralho! Você só me traz problemas, Maçãzinha. Para não me incomodar mais do que já incomoda, terei que encontrar uma forma de trazê-la para mais perto.
Fui para o meu quarto, tomei um banho e depois deitei. Tomei uma pílula para dormir. Sabia que aquela seria uma noite daquelas horríveis, que o corpo queria descansar, mas o cérebro se recusaria a obedecer.
Tentei ler um livro. Tentei trabalhar pelo celular. Tentei olhar alguns vídeos idiotas. Mas não conseguia me concentrar em nada, pelo simples fato de que Maria Fernanda estava dentro da minha casa, há alguns passos de mim.
Quando ouvi a batida na porta, leve, curta, já sabia quem era. Davi, como sempre, entrou sem se identificar. Sabia que não precisava. Ele era dono daquela casa e tinha acesso a todos os lugares. E os meus aposentos não eram restringidos a ele de forma alguma.
O que eu não esperava era ver Shirley logo atrás, entrando no meu quarto usando a porra de um baby-doll vermelho rendado, como se tivesse saído de um bordel barato.
Davi correu para minha cama e se jogou nos meus braços:
— Papai, eu tive um pesadelo.
O coraçãozinho dele estava acelerado e as mãos trêmulas. Olhei para Shirley, que disse, sorrindo:
— Ele pediu pelo papai.
Sim, claro que pediria. Ele sempre queria ficar comigo quando tinha pesadelos. E sempre os teve. Mas nos últimos tempos estavam bem mais frequentes.
Quando ela fez menção de vir para a minha cama, falei num tom de voz alto o suficiente para que ela não tivesse dúvidas:
— Que parte você não entendeu de que “não pode, em hipótese alguma, acessar os meus aposentos”?
Ela arregalou os olhos:
— É que o Davi...
— Davi pode. Você não. Saia! — apontei para a porta que ela tinha deixado entreaberta.
Shirley saiu, atordoada. Que porra do caralho aquela mulher pensava que era?
— Quero dormir com você, papai. Eu não quero ficar com aquela mulher.
— Davi, você precisa dar uma chance a ela.
— Quero só a Maria como babá.
— Maria precisa descansar.
— Então eu fico com Maria de dia e com você de noite.
— Por que você não gosta de Shirley?


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