Quando ouvi a voz dele, paralisei. Então, lembrei que não estava fazendo nada errado e tentei permanecer naquele abraço com Aayush. Infelizmente, Aayush não pensava como eu. E me afastou, como se estivéssemos cometendo um pecado.
Enzo pegou-me pelo braço:
— Como se atreve a me trair dentro da minha própria casa?
Balancei a cabeça, atordoada. “Trair”?
— Senhor, não é o que está pensando... — Aayush tentou se justificar.
— Sempre que me dizem que não é o que estou pensando, é o que estou pensando.
— Senhor, eu não me atreveria. — Aayush parecia preocupado.
E eu o entendia. Certamente para ele aquele emprego também era muito necessário.
Enquanto Enzo falava sem parar, fui levada para longe enquanto observava o homem moreno, magro, com olhos escuros e terno preto, ouvindo o patrão paranoico gesticulando feito uma criança que estava na fila do playground e alguém passou na frente e tomou o seu lugar.
Ah, Aayush! Respira fundo, engole o orgulho e lembra dos seus boletos. É assim que eu faço.
Fiz os cálculos rapidamente: Enzo tinha me ofertado o dobro do salário. Então, se eu me demitisse agora, havia uma grande possibilidade de, com o valor recebido pelos dias trabalhados, pagar o agiota. Assim como Marcondes cobrava o não pagamento por hora, certamente dava desconto pagando antecipadamente. Ao menos eu achava.
Na minha cabeça eu tinha a certeza de que seria demitida.
Respirei fundo e virei, indo em direção ao meu quarto. Como eu iria embora mesmo, não precisava ouvir as loucuras de Enzo.
— Aonde você vai? — Enzo perguntou.
Parei de caminhar, mas não virei para olhá-lo:
— Eu vou embora. — fui clara.
— Para o seu quarto? — pareceu hesitante.
— Para a minha casa. — virei na direção dele
Enzo estava lado a lado com Aayush. Como os dois conseguiam trabalhar juntos se eram tão diferentes? E não era só diferença física. A diferença era em todos os sentidos.
— Hoje? Você vai para a sua casa hoje? — franziu a testa, confuso.
— Hoje, amanhã e para sempre.
— Como assim?
— Demissão. Ato ou efeito de demitir-se. Encerramento formal do contrato de tralhado entre empregado e empregador, regulamentado judicialmente. Pode ocorrer por iniciativa da empresa, do funcionário ou em comum acordo. Os direitos variam dependendo da modalidade. Espero que pague o que é meu por direito. E dobrado, porque você disse que eu ganharia uma vez mais o valor que prometeu no contrato.
— Eu te prometi no contrato uma vida de princesa. E ainda assim vai se demitir, pela enésima vez?
— Uma vida de princesa? — eu ri — Sinto muito, Enzo, mas princesas não são tratadas dessa forma. E você, não é um príncipe e sim um vilão. Um vilão tipo Freddy Krueger, não na aparência, é claro, mas paranoico, obsessivo e vingativo. Ou o Capitão Gancho, um exemplo clássico de paranoia, que vive em constante medo e obsessão pelo crocodilo que comeu a sua mão.
Aayush riu. Sim, ele riu. Enzo, por sua vez, o olhou, parecendo tentar entender o que eu disse.
Não, Enzo jamais entenderia. Talvez soubesse quem era o Capitão Gancho. Mas duvido que associaria ao clássico Peter Pan. Freddy Krueger? Um filme que só pessoas normais (ou nem tanto) assistiram.
— Você está sendo cruel. Sou muito mais um vilão tipo Frollo. — Enzo reagiu.
— Frollo? — quem era Frollo?
— Concorda comigo? — o tom de voz dele foi... gentil.
— Eu não sei quem é Frollo. — se eu sabia, não lembrava.
Enzo se aproximou de mim de forma lenta, parando a um passo de distância.
— O corcunda de Notre Dame. — explicou.
Ok, um clássico. Mas um clássico esquisito e triste. Não triste como a história sem fim... mas triste.
— Você não é um corcunda. E nem parece com um. — rebati.
Pelo contrário... a aparência dele era... boa. Muito boa. Extremamente boa. Sedutoramente boa. Apaixonadamente... boa.
Minha respiração acelerou com a proximidade dele. E o aroma do perfume masculino entrou pelas minhas narinas, me deixando enfeitiçada. Ele estava mais para o...
— Kamsa. — Aayush se manifestou.
Eu e Enzo o encaramos. Afinal, quem era Kamsa na fila do pão?
— Termine o que começou, Aayush. Você já está fodido mesmo! — Enzo ordenou, usando um tom de voz manso.
Ela tinha uma tatuagem como a minha, um cabelo como o meu, a cor dos olhos exatamente os meus. Shirley... queria ser eu?
Nunca me senti tão bem na vida por ter cortado meus cabelos e pintado de castanho escuro.
Ok, eu não tinha sido traída. Na porra do nosso relacionamento inexistente não houve traição.
— Eu também... não te traí — me desmanchei. — eu só estava... precisando de um abraço. Porque...
— Quando precisar de um abraço, pode pedir para mim, Maçãzinha.
Deus, como eu queria poder entrar na mente de Enzo. E botar cada coisa na sua caixinha. Porque eu tinha certeza de que estava tudo bagunçado naquele cérebro.
Mas ainda assim eu gostava... porque era uma caixinha de surpresas. Uma caixinha de surpresas... na maioria das vezes boa. Outras nem tanto. Mas eu amava surpresas.
— Você sumiu depois daquela noite. — esperei ter expressado o quanto aquilo me magoou.
— Trabalhei muito. Eu queria voltar mais cedo... mas não consegui fazer isso nenhum dia. A empresa está trocando o nome... e toda a produção. São coisas que não posso delegar para outras pessoas. E... fiquei bem ocupado procurando seu presente.
— Eu não quero um presente. Eu só quero você. Você na versão boa, normal.
— Que?
Ah, ele nunca entenderia. E não me preocupei em explicar. Passei minhas pernas em torno dos seus quadris, fazendo-o se jogar sobre mim.
— Isso... é um pedido de perdão? — perguntei.
— Sim, Maçãzinha. É um pedido oficial de perdão.
— Eu perdoo. Mas com uma condição.
— Eu também tenho uma condição.
— Para me perdoar? — arqueei uma sobrancelha, curiosa.
— Sim.
— Qual a sua condição, senhor ilusão de ótica?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...