O telefone de Letícia tocou. Ela olhou no visor e encerrou a ligação, sem atender. Antes que eu abrisse o presente de Michael, que pouco me interessava, ela levantou e disse:
— Se me dão licença, preciso ir ao banheiro.
Assim que ela saiu, abri rapidamente o presente de Michael. Era uma caixinha de veludo, daquelas que guardava joias. Senti um frio na barriga, temendo receber um brinco igual ao de Letícia, de ouro branco, com um filete dourado. Bem, minha samambaia e meu cachorro imaginário iriam se divertir.
Até que me deparei com um anel de coração. E fiquei imóvel, como se eu fosse uma estátua, com aquilo na mão.
Novamente o silêncio ficou denso, quase insuportável.
— Eu te devia isso. — ele disse, com a voz fraca, baixa — uma vez fizemos tatuagens e prometemos nos casar — pôs a mão em direção ao centro da sala, para que, caso alguém não soubesse (o que não era o caso ali), se certificasse da porra das tatuagens. — seguimos caminhos diferentes. Mas quero que saiba que você mora do meu coração, Fê.
Eu não ousei olhar na direção de Enzo. Eu tinha muitas dúvidas quanto ao que ele sentia por mim. Mas de uma coisa eu tinha certeza: ele era muito ciumento.
Senti minhas bochechas ficarem vermelhas e vi as mãos de Enzo se fecharem com força.
— Isso é muito barato para os dedos da minha noiva. — Enzo disse, entredentes.
Michael riu:
— Noiva? Não estou vendo nenhum anel no dedo dela.
Enzo olhou para a minha mão, atordoado.
— Eu agradeço o presente, Michael, mas não posso aceitar. Não seria correto.
— Fê, é só um anel de amizade. E não, não é barato. É de ouro.
Pus a caixinha sobre a mesa e disse, encarando-o:
— É tarde para isso, Michael.
Sim, ele sabia que era tarde. Eu sonhei tanto com aquele momento. Eu cheguei a escolher o anel de Letícia achando que era para mim. Agora, não fazia sentido. Me senti até ofendida. Só por que eu estava feliz Michael queria estragar tudo, como se eu fosse obrigada a gostar dele para o resto da vida.
— Nunca é tarde, Fê. O que a gente tem... é muito especial. Sei que errei com você, mas me arrependo.
— Isso... é um pedido? — Will cortou a tensão do momento. Ou ferrou com tudo de vez — Porque se é, acho que você está bem atrasado, Michael. Minha irmã já está comprometida. Assim como você, claro.
“Comprometida”. Respirei fundo e me levantei, pegando um dos presentes de forma discreta.
— Preciso ir ao banheiro.
— Fê, perdoe o meu filho. — Marcelisa parecia decepcionada com a atitude de Michael.
— Não se preocupe com isso — Enzo disse a ela, se recostando de forma confortável no sofá — Maria Fernanda é minha e nada nem ninguém no mundo vai mudar isso.
Senti um desconforto e realmente fui ao banheiro. Percebi que Letícia falava ao celular lá dentro. Bati na porta e segundos depois ela saiu, me encarando.
— Seu amante ao telefone? — perguntei.
— Cheguei a me sentir um pouco culpada pelo que eu fiz com Michael — ela me disse, com desdém — até perceber o quanto você é vagabunda e interesseira. Pelo menos eu não sou. Michael não tem nada e estou com ele. Você é muito mais esperta do que eu imaginava. Quer começar do topo, pegando o CEO mais rico do país. Sinceramente, acho que ele está brincando contigo, como Michael fez. Ninguém te leva a sério. — cruzou os braços.
Não pensei duas vezes e peguei a tesoura, passando nos cabelos dela, deixando um lado bem mais curto que o outro. Levantei a mecha, enquanto ela ficou ali, observando incrédula o que eu tinha feito, sem conseguir reagir. Ou melhor, ela nem teve tempo de impedir, porque eu fui bem rápida.
— Seu presente até que é útil. E se abrir a sua boca, eu falo para todo mundo sobre aquele dia na farmácia. Michael até pode acreditar em você. Mas ele será o único naquela sala que fará isso. — virei as costas e saí, não esperando pela reação dela.

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