Sim, foi Michael. Ele que chegou na exata hora em que eu me declararia para Enzo Asheton, pai do meu filho, meu patrão e... “namorado”.
— Estou apertado. E louco para usar o banheiro. — disse.
Enzo me soltou. Respirei fundo e Enzo pegou a minha mão. Percebi que ele ficava bem tenso perto de Michael, embora eu já tivesse dito que só fomos amigos e nunca passou disso. Quer dizer, houve um chupão. Mas eu não consenti.
— Parece que é hora dos presentes. — Michael disse quando passamos por ele — E eu tenho uma grande surpresa. Sabia que a Fê ama surpresas? — olhou diretamente para Enzo, provocando.
Caralho, aquele garoto ignorou meus sentimentos por anos e agora que eu finalmente tinha encontrado alguém por quem me apaixonar, decidiu, por ciúme e egoísmos, destruir o meu relacionamento.
— Se ela ama surpresas eu não sei. Mas que vai amar o meu presente, isso eu tenho certeza. — Enzo sorriu, de forma sarcástica.
Puxei Enzo, ignorando totalmente Michael. Que se fodesse aquele idiota.
Quando chegamos na sala, os presentes estavam sobre a mesa. Tínhamos aquela tradição de juntarmos todos os presentes no dia do aniversário e abrir na presença da família.
No centro, a torta. Meu pai tinha feito também. Quando percebi seu sorriso, parecendo preocupado se eu acharia gostosa, me dei conta do quanto ele me amava, embora não soubesse demonstrar.
Meu pai era um homem charmoso. Mas estar atrelado àquela cadeira de rodas destruiu o que ainda lhe restava de amor-próprio. Naquele momento eu entendi porque ele queria tanto tentar um tratamento novo com intuito de recuperar os movimentos das pernas. A questão é que a queda havia afetado a coluna e o médico dito que aquela condição era irreversível. Então essa era a minha preocupação: ele fazer aquela viagem e no fim não dar certo. Ficaria muito frustrado. Ainda mais frustrado do que se tornou desde que a mão morreu.
Eu sempre amei a hora dos parabéns e de assoprar a vela. Mas ao ver Davi ao meu lado, empolgado, com aqueles olhinhos fixos na labareda da vela, o puxei para mim e sussurrei no seu ouvido:
— O que acha de apegar a vela para mim?
— Eu posso? — sorriu, entusiasmado.
— Claro que pode.
Ele tentou piscar o olho e o peguei no colo e apertei-o contra mim. Eu jamais entenderia porque amava tanto aquele menininho!
Davi apagou as velas e nos sentamos no sofá, com ele no meu colo.
Meus tios me deram um fone de ouvido moderno. Eu não fazia a mínima ideia do motivo pelo qual acharam que eu pudesse gostar daquilo. Mas... eram os pais de Letícia, que me dava os presentes mais inúteis que já ganhei. Então... até que fazia sentido.
Maciel e Marcelisa me presentearam com uma bolsa. Parecia ser cara. E era muito bonita. Agradeci. Eles sabiam exatamente os meus gostos.
Até que chegou a vez do presente de Letícia. E eu senti um frio na barriga, daqueles de tensão. Ela nunca me deu um presente que eu tenha gostado. A embalagem era pequena.
Desembrulhei, temerosa. E então encontrei uma tesoura. Sim, ela me deu uma tesoura! A encarei, pedindo explicações, óbvio.
— Agora podemos recortar. — Davi disse, sorrindo.
Inocência! Que período lindo na vida, onde não se identificavam as maldades das pessoas ao redor!
— Para você cortar tudo de ruim na vida — ela sorriu — e seus laços com o meu noivo, em definitivo.
O silêncio se fez na sala. Retirei a tesoura da embalagem e pensei se cravava nela agora ou depois.
— Letícia! — Michael criticou, espantado.
— Eu... não acredito que fez... — Marcelisa pareceu com dificuldade de pronunciar as palavras.
— Eu estava brincando! — ela riu — Na verdade não sabia o que comprar, pois faz um tempo que não vejo a minha prima e não temos nos falado muito. Então não sei direito os gostos atuais dela. Uma tesoura... bem, todos usam tesoura. E essa... foi bem cara.
Eu sorri:
— Minha samambaia e cachorros imaginários irão amar. E minha lata de lixo também.
— Eu nunca ganhei uma tesoura de aniversário. — Davi estava maravilhado.

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