Tentei o possível para disfarçar com Marina, mas tenho quase certeza de que ela percebeu. Principalmente porque, quando ela saiu do banheiro mais vermelha do que eu, percebi que eu tinha um chupão imenso no meu pescoço.
— Você viu o Vinícius? — ela tinha me perguntado, e dito em seguida que Thales estava com sono e queria ir embora. Minha resposta foi ainda pior que o chupão:
— Não faço a menor ideia de onde ele esteja… quem sabe também foi ao banheiro? — parei, me dando conta de que tinha falado demais — no dos homens, é claro, não aqui. Afinal, por que ele estaria aqui?
Marina deu um sorriso cúmplice pra mim seguido de um apertão no meu braço e uma piscadinha de olho. Eu queria morrer.
Deixamos Marina na casa dela, um condomínio no Jardim Paulista, enquanto eu escondia com a mão o chupão do pescoço, como se ela já não tivesse visto. Nem sei por que fiquei tão constrangida. Talvez fosse pela falta de costume em passar por situações como essa.
O Thales não parou de falar um minuto sequer dentro do carro. Desde a hora em que a gente saiu da escola até estacionar na garagem, ele ficou revezando entre perguntar se o Vinícius conhecia a música que ele tinha cantado — ele não conhecia, eu notava pela cara de perdido dele, mas ele fingia que sim para não decepcionar o menino, o que achei fofo demais — e reclamar dos outros dois meninos da banda com os instrumentos desafinados. Só então me dei conta de que Thales era perfeccionista como o pai, do jeito dele.
Toda vez que o Thales perguntava se o show tinha sido mesmo incrível, Vinícius respondia com todo o carinho do mundo: “Foi muito melhor do que eu esperava, filho. Sério.”
Eu olhava pela janela, tentando não pensar em nada. Mas, pra ser honesta, minha cabeça estava a mil. Era impossível não lembrar do calor do corpo dele, dos gemidos, do jeito que ele parecia cultuar o meu corpo. Era ridículo sequer pensar nisso, eu sei. Um cara como ele jamais estaria rendido por mim, e eu tentava me dar um choque de realidade constante, mas toda vez que ele me amava, eu esquecia de todas as regras que eu tinha me imposto pra não me envolver demais, pra não sofrer.
O assunto Marisa também não saía da minha cabeça. O alívio de saber que ela estava viva e bem foi imenso, mas não imaginava que ela seria irmã justamente de Daniel.
Sabia que coincidências existiam, mas essa parecia suspeita. Eu tinha ido com a cara dele, na verdade tinha achado Daniel extremamente atrevido e me impressionado com a forma que ele falava as coisas, nem aí se Vinícius era CEO ou não. Gostava dessa audácia, desse foda-se pra hierarquia social, mas não esperava ter mais notícias dele, e muito menos assim, relacionadas à Marisa.
Reparei que Inês dormia no banco do passageiro, com a expressão tranquila. Era bom vê-la assim, relaxada. Tinha sido um momento lindo em família, e Inês era da família. Era nítido como Vinícius tinha carinho por ela — tinha praticamente sido criado por ela — e o orgulho que ela sentia por Thales era de uma avó, o que me fez lembrar que Valéria não tinha aparecido. Achei estranha a ausência dela, mas resolvi não perguntar a ninguém para não pesar o clima.
Quando chegamos em casa, Thales desceu primeiro, largando o violão e a jaqueta no sofá da sala de entrada. Terminei de ajudar Inês a acordar e subir para o quarto dela e, logo em seguida, subi para o meu quarto, joguei minhas roupas no cesto e fui direto para o chuveiro.

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