Essa segunda reunião com os fornecedores estava parecendo mais uma perda de tempo.
Todos os dados apresentados batiam perfeitamente, e eu já começava a duvidar se a fonte do problema estava realmente nos fornecedores.
Até que algo me chamou a atenção: uma das microempresas que nos forneciam uma quantidade grande de tampas para frascos de perfume estava no nome de um tal de Cristiano, presente na reunião. Algo já tinha me cheirado mal quando eu tinha buscado mais a fundo e descoberto que esse fornecedor tinha feito várias empresas e que, a cada dois anos ou menos, fechava uma pra abrir outra.
Analisei com atenção redobrada o relatório impresso e pedi para Márcio me ajudar a analisar. Ele, como sempre, estava mexendo no celular, completamente alheio a todos os problemas, pronto pra escapar na primeira desculpa. Outro fato curioso que reparei era que Cristiano evitava olhar na minha direção e, quando olhava, era só de relance, como se quisesse esconder alguma coisa.
Foi quando Karina entrou. Eu diria que ela estava atrasada, porque a reunião já tinha começado há quase uma hora, mas ela nem tinha sido chamada. Karina, assim como Márcio, tinha uma pequena parcela das ações da Lotus e, ao contrário do irmão, nem fingia ter interesse nos “assuntos chatos” da empresa, como ela mesma dizia.
Mas nem foi a presença dela que me surpreendeu, e sim o jeito apressado com que entrou: afobada, mal conseguindo respirar. Sentou do lado do Márcio, se ajeitou na cadeira e pegou a pasta dele para analisar os dados da reunião, enquanto Cristiano continuava enrolando para apresentar os dados do relatório e as minhas dúvidas quanto ao orçamento.
O que realmente chamou atenção no relatório não foi um erro — pelo contrário —, foi o padrão exato nos valores de frete e custos de produção.
Todas as remessas tinham números redondos e exatamente iguais de custo e frete. Não existia variação, nem pra mais nem pra menos.
Empurrei o relatório pra Márcio sem falar nada e apontei a coluna. Ele olhou, franziu o cenho, abriu a boca pra falar algo, mas o impedi com um gesto de mão.
Continuei passando as páginas e analisando os dados e percebi que, na remessa de março, um único dado tinha mudado: o peso total declarado da caixa tinha subido onze gramas em relação a fevereiro. Isso me cheirava a mistura de matéria-prima pra cortar custo, entregando um produto adulterado. Onze gramas por caixa não parece muita coisa, mas a Lotus comprava mais de oitocentas caixas por mês.
Karina continuava analisando os relatórios, mas era notável que estava fazendo isso pra fingir, porque, de maneira disfarçada, erguia o olhar pra espiar a mim e a Cristiano.
Que porra tava acontecendo?
Prestando atenção não só em Cristiano, perguntei sobre essa alteração de peso. O sujeito começou a me enrolar, dizendo mil coisas sem chegar a lugar nenhum, quando Karina se intrometeu:
— Mas esse tipo de variação de peso não é normal no processo de produção?
Eu olhei pra ela, mas Karina desviou o olhar.
— É normal quando muda alguma variável — respondi. — Mas as matérias-primas de produção continuam as mesmas.
— Ah. — Ela assentiu, como se tivesse se dado conta disso pela primeira vez.
Márcio me olhou de lado, parecendo confuso.
Cristiano aproveitou a distração pra tentar mudar de assunto, falando de prazo de entrega pra próxima remessa. Cortei o papo furado de forma direta:
— Cristiano, acho que já tenho o suficiente. Obrigado.
Ele abriu a boca pra tentar se justificar, mas o ignorei, o que desencorajou a ladainha que ele estava prestes a iniciar.

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