POV BELA:
Marina tinha me prometido que essa festa seria mais “íntima” mas nessa altura eu já tinha aprendido que “íntima” no vocabulário da Lotus era um evento pra no mínimo duzentas pessoas vestidas impecavelmente em um salão de festa luxuoso repleto de garçons, fotógrafos, música ao vivo e olhares assustados pra mim.
Desci o corredor lateral devagar, porque os saltos não eram meus amigos e nunca seriam. A Marina tinha escolhido sapatos com saltos baixos, "pra facilitar a adaptação", e eu queria saber o que ela considerava difícil, porque com esses eu já parecia o bambi aprendendo a andar.
Já tinha desistido de manter qualquer tipo de dignidade enquanto caminhava com cuidado o resto do caminho, tudo que tinha me restado era rezar pra não cair ou torcer o pé.
Pra piorar, também não estava enxergando direito. As lentes de contato tinham parecido uma boa ideia lá no camarim, duas horas atrás, quando ainda me iludia de que poderia me adaptar a uma aparência mais agradável. Agora, meus olhos ardiam como se alguém tivesse espremido limão neles, e o esforço de não coçar era contínuo e angustiante.
“Não coça!”, fiquei repetindo pra mim mesma.
Coçar ia borrar a maquiagem que a Gabi tinha levado quarenta minutos fazendo.
A roupa era a mesma do ensaio e pelo menos nelas, me sentia à vontade. A calça e a camisa de linho amarelo eram confortáveis e não fugiam do meu estilo. Meu cabelo estava solto, e eu sentia que a escova, feita momentos antes, já não estava se segurando e o frizz, meu velho conhecido, já estava tomando conta.
Quando finalmente cheguei ao saguão, me admirei com a grandiosidade do lugar e a quantidade de pessoas.
O saguão estava decorado com as fotos do ensaio, ampliadas, iluminadas por luzes de led direcionadas. Isso já era esperado, o que causava estranheza era ser eu, pelo menos tecnicamente.
A mulher nas fotos tinha meu cabelo, minha roupa, estava no mesmo estúdio em que eu tinha ficado por longas horas, posando de maneira desajeitada, me sentindo ridícula por sensualizar e posar como se fosse a Gisele Bündchen. Mas havia algo que não batia, e eu precisei me aproximar pra entender o quê.
O meu nariz não era assim! Tinha uma curva pequena no meio e na foto, ele era simétrico. Perfeito. Como se alguém tivesse pego um molde e alterado.
Olhei pras sobrancelhas desenhadas e meus dentes extremamente brancos e alinhados de forma artificial.
Ficou evidente que tinham colocado as minhas fotos pra alguma I.A “arrumar”.
Dei um passo atrás.
Eu tinha dado ordens.
Foi a primeira coisa que falei quando assumi o setor, porque era o mínimo, porque era óbvio, porque eu tinha pensado que estava falando com artistas: sem IA no tratamento de imagem!
A campanha se chamava Beleza Verdadeira. Se o objetivo era alguém simétrico e perfeito, não tinha razão alguma em me chamar.
Eu tinha examinado as fotos que foram publicadas nas redes sociais, as que tinham sido mandadas pra imprensa. Aquelas, tinha me certificado, eram realmente minhas. Sem alterações nem edições excessivas.
Não entendia, então, por que tinham editado as fotos do evento e quem tinha passado por cima das minhas ordens.
Eu iria resolver isso amanhã. Podia relevar muita coisa, mas isso era inadmissível.
— Essa é a noiva do CEO — disse uma voz do meu lado. — Não conheço muito.
Juliano estava ali com uma taça de champanhe que ele claramente tinha pego só pra ter o que fazer com as mãos, porque ele não bebia.
Usava a mesma calça social bege de sempre, a camisa passada com cuidado, o cabelo cheio de cachos, pesados de gel.
— AHAHA! Muito engraçado… — repreendi, revirando os olhos.
— Eu te conheço. — Ele inclinou a cabeça na minha direção — O que tá te incomodando tanto?
— Isso! — apontei pras fotos — Isso tudo! — completei sinalizando ao redor. — Tudo isso é uma grande mentira.
— Ah! O de sempre então, né? — Juliano respondeu coçando a nuca. — Tava preocupado. Pensei que o Vinícius tinha brigado com você por ter pedido uma vaga pra mim.
— Não. — Suspirei. — Ele disse que vai pensar. E eu vou fazer de tudo pra convencê-lo.
Juliano levantou uma sobrancelha.
— Me poupe dos detalhes sórdidos da sua vida sexual com ele, Bela.
Abri a boca espantada com a ousadia. Dei uma batidinha no braço dele com o dorso da mão, tentando parecer ofendida, e provavelmente falhei porque ele já estava rindo.
— Quem disse que ia convencê-lo desse jeito?
POV VINÍCIUS:
— O evento de hoje tá top, pode me dar os parabéns! — disse Márcio, inclinando a taça pra mim como se estivesse brindando alguma conquista enorme. — Tô evoluindo, você tem que admitir.
Ignorei o comentário e continuei examinando o saguão. A festa estava cheia, as fotos da Bela espalhadas pelas paredes, os convidados circulando dando os sorrisos de falsa cordialidade de sempre.
Era uma noite importante.
O lançamento tinha superado qualquer projeção que o setor de marketing tinha apresentado, e eu tinha dois convites de parceiros chilenos que queriam conversar sobre distribuição na América do Sul.
— Quero levar a Bela pro Chile.
Marcio olhou pra mim, surpreso.
— Viagem de negócios?
— E de divulgação. O anúncio dela repercutiu lá também. Tenho duas reuniões marcadas com potenciais parceiros, faz sentido ela estar presente.
Márcio ficou me olhando e eu percebi o momento que alguma ideia invadiu aquele cérebro nefasto.
— Vou montar um roteiro romântico pra vocês dois e mando no seu email.

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