Quando Marina me avisou que a polícia iria liberar Jonas do hospital daqui alguns dias, logo soube que precisava falar com ele antes de embarcar para Santiago.
O delegado não gostaria nada dessa minha visita.
Tinha deixado claro que não poderíamos nos intrometer no processo nem ficar questionando Jonas sobre o que tinha acontecido, que isso era papel deles. E eu teria ficado na minha se eles tivessem feito o trabalho deles.
Até agora nada tinha sido resolvido, nem o incêndio. Me recusava a acreditar que nenhuma câmera tinha pego o culpado, nem ao menos as câmeras próximas da Lotus. E as filmagens cortadas? Com segundos faltando? Eu tentava tirar mais informações, e a resposta era sempre a mesma: que estavam trabalhando nisso pra resolver o mais rápido possível… eu tinha me cansado disso.
Me identifiquei na entrada, e a recepcionista fez uma cara de preocupação. Estava prestes a pegar o telefone para informar a polícia, então tive que usar da minha lábia e do meu charme com mulheres, que tinha deixado um pouco de lado desde que tinha começado meu relacionamento com Bela. Não gostava de fazer isso, mas, numa ocasião como essa, não via outra saída.
— Júlia, né? — falei o nome dela ao ler o crachá de identificação preso no uniforme dela. — Olha, eu não queria te incomodar, mas é que Jonas e eu somos amigos de infância…
Continuei uma história triste de como éramos quase irmãos, mas o tempo e a vida nos separaram, e, quando ele quase morreu, percebi como era importante valorizar nossos laços e blá-blá-blá. Aos poucos, percebi que Júlia tinha se derretido pela minha história inventada e, principalmente, pelas piscadinhas que eu dava a ela enquanto sorria e me debruçava um pouco no balcão.
Em pouco tempo, minha visita estava liberada.
O quarto de Jonas era no segundo andar. Quando abri a porta, o vi erguer a cabeça pra mim e se ajeitar na cama. Pouco tempo depois, abriu um sorriso de satisfação, como se estivesse torcendo pra que eu aparecesse ali.
— Doutor Vinícius. — ele enfatizou o “doutor”. — Que honra.
Puxei a poltrona pra mais perto dele e sentei.
— Como você está? — perguntei.
— Vivo… pelo menos por enquanto.
Cruzei os braços e mantive a expressão séria, deixando claro que não tinha vindo pra ficar jogando conversa fora.
— Tem ideia de quem fez isso? — sinalizei pra ele mesmo na cama.
Jonas deu de ombros.
— Eu já disse tudo ao delegado.
— Eu sei o que você disse ao delegado, não preciso nem me dar ao trabalho de perguntar a ele. Deixa eu ver se acertei… você não se lembra de nada, não é?
Ele abriu um sorriso malicioso e assentiu com a cabeça.
— Conforme o tempo passa, descubro mais gente que me odeia — Jonas disparou, olhando pra mim cheio de insinuações não ditas. — E a filial de São Carlos tem problemas há tempo, doutor. O senhor sabe disso.
Eu sabia muito bem. E o principal problema estava na minha frente agora.
— Sei mais sobre esses problemas do que você possa imaginar…
Pela primeira vez, Jonas pareceu mais desconfortável. Se ajeitou de novo na cama, numa tentativa óbvia de disfarçar e ganhar tempo. Continuei:

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