Eu não sei por que contei.
Talvez fosse o silêncio entre nós enquanto a chuva caía lá fora e a minha mania irritante de querer preencher os espaços constrangedores com algo mais constrangedor ainda. Ou talvez fosse porque Vinícius tinha passado os minutos anteriores ao nosso silêncio falando sobre a infância dele. De como foi crescer naquela casa imensa, sozinho.
Eu estava desconfiada de que ele estava pegando pesado em ser o pobre CEO dos pais ausentes, tudo pra amolecer o meu coração. Fato é que, assim que ele me perguntou sobre a minha primeira vez, eu contei.
*
Na faculdade, eu tinha aprendido que a melhor coisa era fingir que era invisível. Entrava muda e saía calada. Nada de ficar mostrando minha inteligência inconveniente respondendo às perguntas dos professores, nem entregando o trabalho mais impecável. Isso só faria as pessoas me odiarem ainda mais. Tinha sido assim na escola e, acredite em mim, era melhor ter aprendido isso antes.
Mas, quando se tratava de ajudar os outros, eu não conseguia dizer não. Então, em pouco tempo, comecei a ser explorada pelos meus colegas de classe e até alguns de outros semestres.
Juliano ficava indignado. Chegou a ensaiar comigo formas de dizer não, me fazendo treinar com ele, como se fosse uma das pessoas folgadas da faculdade. Eu tinha aprendido o suficiente pra me livrar da maioria dos pedidos.
O meu erro foi um só: Rafael.
Rafael apareceu no segundo semestre. O tipo de cara engraçadinho que conquista fácil as mulheres. Bom, pelo menos foi assim comigo. Ele não ser tão bonito também foi algo que me prejudicou.
Pensei que tudo que ele fizesse não teria segundas intenções e que, talvez, um cara charmoso, não tão bonito, poderia sim se importar comigo.
Ele me chamou como dupla pro primeiro trabalho e depois não parou mais. Combinávamos de estudar juntos na biblioteca toda terça e quinta-feira.
Eu já tinha notado que ele se aproveitava de alguns rascunhos de desenhos que eu fazia e deixava de lado. Ele elogiava e dizia: “Mentira que você não vai usar isso, Bela! Posso usar? Claro, se não se importar!”
Não me importava. Pelo contrário, era tão patética que ficava lisonjeada, como se eu fosse sortuda por ter meu talento enxergado.
Com o tempo, ele foi me dando mais sinais de que se importava de verdade comigo: me defendia de comentários babacas, ria das minhas piadas, nunca tinha insinuado algo desagradável sobre a minha aparência. Coisas grandes pra uma feia, pelo menos na época.
Juliano falou que eu estava sendo idiota.
Eu falei que ele não entendia e que estava errado sobre Rafael.
No fim do terceiro semestre, Rafael me chamou pra uma festa na casa de um amigo. Eu passei a semana inteira pensando no que vestir, o que era uma piada, porque o meu guarda-roupa não tinha nada de novo. Seria alguma roupa que eu já tinha usado na faculdade pelo menos umas dez vezes.
Quando cheguei, ele veio até mim, me deu um copo de bebida, me apresentou pra todo mundo como “a Bela, minha parceira”, com um sorriso que me derreteu ainda mais.
Era a primeira vez que alguém me apresentava pros amigos sem aparentar vergonha. Sem tentar disfarçar. Eu não era o segredinho sujo dele.
Os drinks eram bem docinhos e eu nunca tinha bebido. Então fui aceitando mais, toda vez que Rafael se aproximava com outro copo.
Não vou dar detalhes porque eu mesma não lembro de quase nada. Só sei que acordei na manhã seguinte nua e sozinha.

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