Mal tinha voltado de viagem, pisado no Brasil, e os problemas já tinham se apressado em me encontrar. Enquanto analisava a pilha de papéis na minha mesa para ver qual eu pegava para resolver primeiro, Roberta apareceu na minha porta, os olhos arregalados como de costume, um pouco mais pálida do que o normal.
— Bom dia, Roberta. O que foi dessa vez? — perguntei, já afrouxando a gravata.
— Jonas fugiu do hospital.
— Como assim, fugiu? Ele não ia receber alta?
— Sim, iria, mas o médico pediu para que ele ficasse em observação por mais alguns dias e, logo depois disso, ele pirou. Parece que pegou um enfermeiro, deu uma chave de braço até ele desmaiar, depois saiu correndo pela escada de segurança e fugiu.
Que filho de uma puta.
Qualquer que fosse esse motivo tão urgente que não podia esperar mais alguns dias, não era bom.
Agradeci a Roberta e disse que precisava ficar sozinho.
Merda.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi Marisa.
Peguei o telefone e liguei para ela na mesma hora e, para piorar minha preocupação, nada. Até a chamada começou a cair direto na caixa postal.
Estava tão preocupado que nem percebi que Márcio tinha entrado na minha sala.
— Nossa, cara, o que aconteceu? Sua mesa tá toda revirada. — Márcio falou, se sentando na poltrona atrás de mim sem tirar os olhos do celular. — O que foi?
— Jonas fugiu do hospital.
Ele largou o celular no sofá.
— Caralho!
— Fica aqui na Lotus. Se quiser ficar no meu escritório, não tem problema. Mexe no celular, dorme, faz videochamada com suas modelos, não me interessa — apontei o dedo pra ele. — Mas fica aqui. Se souberem algo do Jonas, preciso que me avise imediatamente. Ouviu?
Márcio queria falar alguma coisa. Ele sempre tinha muito o que falar, mas a maioria do que dizia raramente era relevante. Dessa vez, porém, deve ter percebido que, pela gravidade da situação, era melhor ficar calado, e apenas assentiu com a cabeça.
No elevador, mandei mensagem pra Bela pedindo que tentasse contato com Marisa pelo celular dela. Eu não conseguia parar de olhar pra tela, com medo do que aquele canalha podia estar fazendo.
Quando o celular vibrou com a mensagem, meus dedos tremiam para lê-la logo.
“Ela atendeu. Tá bem. Daniel tá com ela.”
Soltei o ar, aliviado.
Mas ainda precisávamos encontrar esse canalha.
*
Voltei pro escritório quarenta minutos depois sem ter descoberto absolutamente nada de útil. Márcio continuava na mesma poltrona, na mesma posição, como se não tivesse saído do lugar.
— Já sei — ele falou antes que eu abrisse a boca — Não descobriu nada, por isso essa cara de policial frustrado.
— Já imagino que você também não tenha tido nenhuma notícia do Jonas, né?
— Nada, cara. Mas a Marisa apareceu. Bom, não te avisei porque imaginei que a Bela iria te falar, já que foi ela quem a encontrou. — Ao falar o nome de Marisa, Márcio fez cara de sacana. A mesma que fazia quando conhecia uma mulher mais intimamente. — A Roberta veio correndo me falar. Acho que a Bela avisou caso alguém estivesse preocupado.
— Você conhece a Marisa?
Ele deu de ombros, como se fosse óbvio.
— A Marisa de São Carlos?
— Existe alguma outra Marisa envolvida com o Jonas? Claro que é ela.
— Não. — Márcio respondeu rápido demais.
— Por quê?
— Porque quando você falou dela, fez uma cara esquisita.
— Que cara? Você tá começando a ficar paranoico. Tanto sexo com a feia tá subindo pra sua cabeça…
— Márcio, eu não vou repetir. Se você fizer mais um comentário pejorativo sobre a Isabela, eu vou arrebentar a sua cara. E agora me fala logo qual é a sua relação com a Marisa.

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