Saí do meu escritório e vim direto pra sala de reuniões. Nenhum motivo especial, nem nada marcado, só queria um ambiente novo. Aqueles e-mails tinham me tirado do sério.
Mal tinha colocado o laptop na mesa quando os dois chegaram juntos. Mas por quê, meu Deus? Não que os meus dias fossem tranquilos, mas esse aqui estava de parabéns. Se eu não tivesse um AVC hoje, não morreria tão cedo.
Bela e Daniel estavam juntinhos, confidentes, com uma carinha preocupada e cúmplice.
“Tudo bem”, pensei. Não seja ridículo. Não seja ciumento.
Com certeza existe uma razão muito séria pra esse cara estar aqui na Lotus, grudado na minha noiva.
Bela entrou bastante afobada, e reconheci aquela expressão: algo importante tinha acontecido. Eu estava prestes a perguntar o que era, quando Daniel se aproximou mais, varrendo a sala com o olhar.
Ele olhou pra minha cara por alguns segundos, sem aquela ironia irritante de sempre. Isso era bom, certo? Sem aquele sorrisinho presunçoso. Mas, de uma forma irracional, aquilo só me deixou mais sem paciência.
— Obrigado por me receber, CEO. — ele disse.
— Não recebi você — respondi.
— Vinícius... — a voz de Bela saiu repreendedora e um pouco surpresa.
Respirei fundo. Engoli o orgulho e apontei para as cadeiras vazias.
Todos se sentaram. Eu permaneci de pé.
— Pode falar.
Daniel me explicou tudo. Falou sobre Marisa, sobre o que tinha acontecido em São Carlos. Entendi que realmente a situação era bem séria.
Quem esse Jonas pensava que era? Até onde iria?
— O outro homem — interrompi. — Você se lembra dele?
Daniel assentiu com a cabeça.
— Ele era alto. Tinha, sei lá, uns quarenta anos. Tava com uma camisa polo e uma calça jeans. Não tinha nada de especial na fisionomia dele, mas parecia um cara importante.
Fiz um sinal com a mão para que ele esperasse. Me sentei, abri meu laptop e comecei a vasculhar o registro de parceiros e fornecedores até chegar em Cristiano. Uma foto simples, 3x4. Provavelmente seria suficiente.
— Era esse cara?
Daniel arregalou os olhos. Olhou, surpreso, pra minha cara e depois pra Isabela.
— Ele mesmo! Como você sabia?
— Esse cara tava superfaturando produtos. E, se tem alguma sujeira nisso tudo, pelo visto o Jonas vai estar envolvido.
— E o que a gente faz? — perguntou Daniel. — A gente nunca vai pegar esses caras. A polícia não consegue recuperar essas imagens ou não quer… Minha irmã vai ficar em risco até quando? Eu não sei mais o que fazer.
— Quanto a isso, gente... — Bela interrompeu enquanto checava uma mensagem no celular.
Eu e Daniel olhamos para ela, confusos.
— Eu sei de uma pessoa perfeita pra recuperar essas imagens. Posso chamá-la?
— Por favor — incentivei.
Minha noiva foi até a porta da sala de reuniões e, por alguns segundos, parecia estar convencendo alguém a entrar.
Juliano apareceu com uma mochila no ombro, um crachá novo pendurado no peito e aquela cara perdida de sempre. Parou no meio da sala, olhou pra gente, analisou primeiro a mim, depois Daniel e, por fim, voltou o olhar pra Bela numa tentativa silenciosa de encontrar algum incentivo.
— Eu tô atrapalhando alguma coisa? Vocês querem que eu volte depois? — o moço desengonçado perguntou, todo inseguro.
— Não! Você chegou na hora certa.
Bela apontou a cadeira ao lado dela. Juliano se sentou, ajeitando a calça e tamborilando os dedos na mesa. Um gesto ansioso que também me tirava do sério.
— Você é irmão da Marisa, né? — Juliano se dirigiu a Daniel.

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