— Você não precisa ficar aqui — ele disse de novo, a voz mais rouca do que o normal.
— Eu sei — respondi.
Coloquei a toalha de volta na bacia com água fria que tinha pego na cozinha e torci devagar, com cuidado, antes de dobrar e colocar de volta na testa dele. Vinícius fechou os olhos. A respiração estava mais calma agora, mas o rosto ainda estava vermelho e quente demais.
38,8. Tinha subido desde a última vez que verifiquei.
Eu tinha mandado mensagem pro Thales dizendo que o pai estava dormindo e que eu ficaria acordada, e o menino respondeu com uma figurinha de um gatinho disparando milhares de corações. Inês tinha passado pela porta do quarto há pouco tempo, perguntando se eu queria revezar, disse a ela que estava bem e que ela podia ir embora pra casa dela, dormir.
Peguei o celular e só então fui conferir as mensagens do dia. Juliano tinha tirado selfies feliz da vida ao lado da tela preta do computador cheia de códigos com a legenda: “Juliano detetive em ação! Porque o mal não dorme!” seguido de uma figurinha do batman.
Dei risada, só ele mesmo pra me fazer rir numa hora dessas.
Não sei quanto tempo passou assim, eu e o barulho da respiração dele e o silêncio da casa. Quando abaixei os olhos pro rosto dele, ele estava me olhando.
— Quanto tempo você tá aqui? — perguntou, com a voz fraca.
— Não muito.
— Bela, preciso te falar uma coisa…
— Descansa, Vinícius. Não fica forçando a garganta. — respondi enquanto colocava o pano na testa dele.
— Fica.
— Tô aqui, não vou pra lugar nenhum.
— Não — ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse tentando organizar os pensamentos. — Não to falando dessa noite. — fez uma pausa. — Se ganharmos essa instância… a guarda do Thales, eu não quero te perder.
Meu coração acelerou, quase saindo pela boca.
O homem tá com 39 de febre, obviamente era a febre fazendo ele delirar. Eu não podia dar corda pra essa conversa, porque só iria ser pior pra mim depois.
— Vinícius, a gente fala sobre isso depois, tá bem? Fica quietinho, pra melhorar logo.
Ele segurou na minha mão enquanto estava prestes a colocar a toalha novamente na testa dele. O seu toque era quente, mais do que nunca, febril. Senti meu corpo todo responder.
— Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida desde o Thales… Eu te amo.
Olhei pra ele por um tempo. Os olhos dele não me deixavam espaço pra nenhum tipo de dúvida e eu não queria levar nada do que ele tinha falado a sério, mas temia que fosse tarde demais. Meu peito queimava, e só de pensar que amanhã ele poderia não se lembrar disso doía muito.
Tive vontade de dizer alguma coisa que desfizesse aquele momento, que desviasse a atenção de Vinícius pra outra coisa. Uma piada. Qualquer coisa que me trouxesse de volta pro lugar seguro onde as coisas ainda eram controláveis e eu ainda sabia onde o contrato terminava e onde eu começava.
Mas há muito tempo eu já tinha perdido o controle.
Só coloquei a mão no rosto dele, devagar, e senti o calor da febre sob a minha pele.
Ele fechou os olhos e adormeceu em menos de dois minutos, com um sorriso satisfeito.
Naquele momento eu rasguei o meu contrato mental com todas as minhas cláusulas inventadas pra me proteger, porque não serviam mais de nada. Eu tava ferrada.

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