Acordei sem febre. Soube disso antes mesmo de abrir os olhos, porque a dor nas juntas tinha sumido e a cabeça tinha parado de latejar como se estivesse sendo martelada. A garganta ainda doía um pouco, mas não tinha mais febre, então não tinha motivos pra reclamar.
Procurei Bela mas não a vi no quarto. Não me lembrava de tudo que tinha acontecido ontem, na verdade, me lembrava de pouca coisa. Apenas fragmentos: Isabela no quarto dizendo que era pra eu ficar quieto e melhorar logo, depois ela sentada perto da minha cama, cuidando de mim.
Sabia que a causa da minha melhora tão rápida tinha tudo a ver com ela, mas achei estranho acordar e não vê-la aqui. Não que ela tivesse qualquer obrigação de ficar de plantão comigo, mas não parecia condizer com a personalidade dela.
Me levantei, troquei de camiseta e fui até o seu quarto.
Bati duas vezes e abri a porta assim que ela disse que era pra entrar. Bela estava sentada na beirada da cama, olhando pro celular. Quando me viu, levantou o queixo, mas não sorriu pra mim, apenas abaixou o olhar de volta pra tela.
— Você melhorou. — E não foi uma pergunta, ela apenas constatou.
— Novinho em folha — respondi, apoiando a mão no batente da porta.
Ela assentiu e continuou digitando na tela. Era nítido que ela queria se livrar logo da minha presença. Eu precisava saber o que estava acontecendo, então me aproximei. Ela não recuou, mas percebi na hora que tinha ficado tensa.
Merda.
O que será que eu tinha feito enquanto ardia em febre?
Mesmo prevendo que seria rejeitado, me inclinei na tentativa de dar um beijo no rosto dela, só pra confirmar se eu estava certo ou se tava imaginando coisas. Foi aí que ela virou o rosto.
Fiquei paralisado. Depois de alguns segundos, voltei pra posição normal, de pé, em frente a ela, que permanecia sentada. Fria. Indiferente. Tudo, menos a Isabela que eu conhecia.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não — ela respondeu, sem hesitar.
— Bela… fala comigo. Pelo menos olha pra mim! Por favor.
— Não aconteceu nada, Vinícius. — ela respondeu, erguendo o olhar.
Fiquei olhando de volta, e o que senti foi pior do que qualquer ofensa física ou verbal que ela pudesse desferir contra mim. Ela sustentava o olhar, mas não tinha nada por trás dele. Era como se estivesse oca, sem sentimento algum.
— O que eu disse ontem?
— Por quê? — Ela apertou os olhos levemente, curiosa. — Tem algo que eu não deveria saber?
Eu parei um pouco, tentando entender a insinuação por trás daquelas palavras. O que tava acontecendo?
— Não! Perguntei porque tava com febre. Não sei o que falei. Se eu te faltei com desrespeito de alguma forma, quero te pedir desculpas.
— Você não disse nada de errado — ela respondeu de forma direta. — Na verdade, acho que posso dizer que ontem conheci o Vinícius de verdade.
— Como assim?

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