Desde ontem à noite eu estava vivendo no modo automático. Ele tinha conseguido. O CEO tinha dado conta de ser pior do que o Rafael, o sem caráter da faculdade que tinha apostado a minha virgindade.
Vinícius tinha ligado às duas da manhã, desesperado pra contar pro Márcio que não conseguia se excitar com a tal modelo. Tinha ficado muito claro na mensagem. E eu acreditando quando ele me disse que não tinha tido a intenção de beijar a Valentina, que por algum momento tinha pensado que era eu… e eu acreditei.
Olhei pra tela do computador, o cursor piscando. Eu tava com o projeto da campanha aberto fazia uns quarenta minutos e ainda não tinha mexido em nada. Não tinha escrito uma linha sequer.
Lembrei que Vinícius tinha dito ontem que me amava. Tinha feito a maior declaração de amor e eu, muito idiota, tinha acreditado. Senti tanta raiva.
Eu queria me vingar e tinha nas minhas mãos uma oportunidade perfeita. Podia simplesmente estragar tudo.
Podia sentar ali, abrir o arquivo da campanha e colocar as cores erradas, fontes horríveis, elementos completamente fora do lugar. A Lotus tinha me dado carta branca na identidade visual, e eu sabia exatamente como usar isso contra eles. Em três horas eu conseguiria acabar com tudo o que o doutor Vinícius tinha conseguido construir em dois anos.
Era tentador e era exatamente isso que Vinícius merecia. O que faria doer mais do que qualquer coisa, pra ele.
Mas eu não podia fazer isso. Não podia porque aquele também era o futuro do Thales. E eu também não queria trair a Marina daquela forma.
Não seria justo com ela.
Marina tinha trabalhado meses naquela fragrância, tinha uma carreira e um nome a zelar e tinha me tratado muito bem, desde o primeiro dia. Sabotar a campanha seria prejudicar a única pessoa que tinha sido gentil comigo naquela empresa.
Então era isso. Eu era a idiota que nem conseguiria se vingar.
Estava assimilando esse pensamento quando a porta se abriu. Marina entrou com dois cafés, um em cada mão, e parou assim que viu a minha cara.
Eu devia estar péssima, mais do que o meu normal, porque ela ficou me encarando por alguns segundos sem dizer nada. Depois caminhou até a minha mesa, colocou um dos cafés na minha frente e se sentou na cadeira.
— O que aconteceu? — perguntou.
— Marina, desculpa ter atrasado a entrega do P*F. Já tô acabando — menti, porque não tinha nem começado.
— Bela, não tô falando do projeto.
Olhei pro café. Era do jeito que eu gostava: sem açúcar e com um pouquinho de canela.
Senti minha garganta apertar.
— Eu li uma coisa que não deveria — comecei. — No computador dele. Foi sem querer, eu só fui mandar uns arquivos pra você e o e-mail tava aberto…
Marina ouviu tudo com atenção, sem me interromper. As expressões dela iam mudando conforme eu contava, uma mais surpresa que a outra. Quando terminei, ela negou devagar com a cabeça antes de dizer:

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