O quarto dela estava vazio.
Merda.
Eu ainda tinha esperança de encontrá-la ali. Que estivesse indisposta e por isso não tivesse ido até a Lotus.
Mas bastou entrar para perceber, a cama estava milimetricamente arrumada, a escrivaninha estava vazia, a mesinha de cabeceira também.
Corri até o armário e abri as portas de uma vez.. Não tinha mais nenhuma roupa dela ali.
Peguei o celular e comecei a ligar, mas não parava de cair na caixa postal.
Mandei mensagem – não foi entregue.
Foi só então que percebi que a foto de perfil dela tinha sumido.
Ela tinha me bloqueado.
*
Fui até a cozinha, Inês estava lavando louça como se fosse uma manhã qualquer.
— Onde está a Bela?
— Viajou, doutor Vinícius.
— Viajou pra onde? — perguntei, sem acreditar na calma dela.
Inês continuou organizando os pratos.
— Inês! Pra onde a Isabela foi?
— Ela não me disse.
Foi nesse momento que entendi: Bela não queria ser encontrada.
Minha última esperança era meu filho. Se alguém nessa casa sabia de algo, era ele. Bela não iria sumir sem dizer nada a Thales.
Entrei no quarto dele e o vi deitado na cama, com os fones pendurados no pescoço enquanto rabiscava alguma coisa no caderno.
O que estava acontecendo naquela casa?
Por que ninguém parecia preocupado com o desaparecimento da Bela?
Foi só então que percebi uma coisa. Talvez eu fosse o único que não soubesse o motivo daquela viagem.. Ou pra onde ela tinha ido.
— Você sabe onde ela está — falei.
Ele não respondeu. Eu continuei:
— Thales, eu preciso...
— Por que você fez isso?
A voz dele saiu fria, séria, dura.
De um jeito que ninguém espera ouvir de um menino de dez anos.
— Fiz o quê? — perguntei devagar.
— O que você sempre faz!
Ele fechou o caderno com força e me encarou. Os olhos cheios de lágrimas.
— Sempre que alguma coisa boa acontece, você estraga! Afasta todo mundo! Faz todo mundo ir embora!
A voz falhou no final, mas ele não desviou o olhar.
— Ela foi embora porque você fez alguma coisa. Não adianta mentir!
— Filho...
— Sai do meu quarto. Sai!
Resolvi não piorar a situação e fui embora.
Fiquei parado no corredor.
Ele não estava errado.
Eu ainda não sabia exatamente o que tinha feito. Mas tinha certeza de uma coisa: a culpa era minha.
Sempre era.
*
Márcio estava sentado na minha cadeira, sem gravata, com os primeiros botões da camisa abertos. O folgado mexia no celular como se estivesse na sala da própria casa.
Foi ali que perdi o resto da paciência que ainda me restava.
Bati a porta com tanta força que ele deu um pulo na cadeira, se ajeitou em seguida enquanto limpava a garganta. Depois sorriu, na maior cara de pau.
— Onde ela tá? Você sabe?
— Bom dia pra você também, Vini.
— Márcio, não tô com tempo pras suas gracinhas!
— Eu não sei onde ela tá. Tá falando da Bela? — Ele voltou a se recostar na cadeira. — O que tá acontecendo? Se você não sabe onde ela tá, como é que eu vou saber?
— A Bela não apareceu pra trabalhar hoje.

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