A hamburgueria nunca deixava de me surpreender.
Tinha vindo aqui poucas vezes, mas, de certo modo, eu me esquecia de como era. Num lugar isolado, com aparência de prédio abandonado, apesar dos esforços do seu Ernesto.
Perguntar a ele onde a Bela estava era uma das minhas últimas esperanças.
Entrei e fiquei feliz quando vi que tinha três mesas ocupadas.
Avistei o pai da Bela mexendo na chapa. Assim que ultrapassei a primeira mesa, uma campainha tocou.
Ele imediatamente olhou pra mim, de cima a baixo, e demorou tempo demais pra abrir um sorriso. Eu já tava ficando nervoso.
— Dr. Vinícius — ele disse, já enxugando as mãos no avental e se aproximando de mim.
— Sr. Ernesto, boa tarde.
Fui até o balcão.
— Só um minuto.
Saiu de trás do balcão, apontou para uma das mesas do fundo e nos sentamos.
Cruzou os braços e ficou me encarando com uma expressão séria.
— O senhor sabe onde a Bela está? — perguntei.
Ernesto pareceu confuso no início. Levou um tempinho para me responder.
— Doutor Vinícius, ela não me disse pra onde foi. Só falou que ia tirar férias. Eu não achei importante perguntar. Por que? Ela tá em perigo?
Percebi que o homem ficou preocupado imediatamente.
Droga.
Se a minha visita já tinha causado preocupação, aquilo só ia piorar as coisas.
Me apressei em dizer:
— Não, não. Acredito que ela esteja bem. Tenho certeza disso.
Fiz um sinal com a mão pra que ele voltasse a se sentar.
— É que.. veja. Aconteceu um mal-entendido.
Assim que comecei a falar, Ernesto olhou pra mim com cara de poucos amigos.
Eu estava vendo que ele ia me dar alguma bronca ou algo do tipo.
E eu não o culpava.
Como pai, eu também teria a mesma reação.
— Acontece que a Bela foi embora antes que eu pudesse me explicar.
— Sei — o pai dela disse em seguida. — E o que o senhor fez?
Cocei a nuca, pensando em qual seria uma versão menos pior pra dizer a ele.
Resolvi ser o mais vago possível, porém honesto.
— Fiz muita coisa errada — respondi. — Algumas sem saber. Mas isso não muda minha culpa.
Ernesto assentiu devagar.
— A minha Bela... — começou a falar, com a voz um pouco mais tranquila agora. — Muitas vezes guarda o que sente pra si. Acho que puxou isso de mim.
Ele deu uma leve risada.
— E aí, quando sente, sente tudo de uma vez. Mas ela também não é rancorosa, doutor. Nunca foi.
Ele passava a mão pelos guardanapos da mesa devagar, olhando pra eles.

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