A porta se abriu.
Vinícius reagiu antes mesmo de eu processar quem tinha entrado. Ele me empurrou pra cima, brusco, quase me jogando da poltrona. Levantou num pulo, ajeitando o terno com as duas mãos, virando de lado pra esconder a ereção óbvia.
Eu me segurei no braço da poltrona pra não cair de cara no chão. O vestido armado quase me derrubou. Consegui me equilibrar, mas o salto torceu e fiz careta com a dor.
Karina estava parada na porta. Linda. Perfeita. Cabelo loiro em ondas impecáveis, vestido vermelho mais justo que Deus, marcando cada curva daquele corpo escultural. A expressão dela era de confusão, olhando pra mim e pra ele.
— Ela tava no seu colo? — perguntou, e tinha algo na voz dela que me irritou mais do que tudo. Uma descrença, como se algo assim fosse impossível.
Bom, até poucos minutos atrás essa situação era impossível até pra mim. Nem nos meus sonhos mais malucos eu imaginaria que estaria sentada no colo do doutor Vinícius e mais do que isso, me esfregando no pau duro dele.
Ainda me perguntava se aquilo tinha acontecido mesmo ou se eu tinha enlouquecido de vez. Mas a minha calcinha molhada não me deixava esquecer do que tinha acontecido, nem o rosto corado dele.
Idiota, esperei que ele me defendesse de alguma forma. Que explicasse de maneira incisiva que não era da conta dela se a noiva dele estava ou não no seu colo.
Mas ele só ficou ali parado, ajeitando a gravata, passando a mão no cabelo e agindo como se eu não existisse. Ele nem ao menos olhava pra mim.
A gente era noivo. Noivos de mentira, sim, mas ela não sabia disso. Ninguém sabia disso. Então qual era o problema de eu estar sentada no colo dele? Por que aquilo era motivo de surpresa? Por que ele estava reagindo como se tivesse sido pego fazendo algo errado?
Claro que a resposta era muito mais simples, eu que não queria enxergar.
Ele tinha vergonha de ser visto comigo.
Vergonha de mim.
— Oi, Karina — Vinícius disse finalmente. — Não sabia que você estava aqui.
— Márcio me chamou — ela entrou no espaço vip, os saltos batendo no chão de madeira, se aproximando dele. Ignorando completamente minha existência. — Achei que seria divertido.
Ela tocou o braço dele de maneira natural e possessiva. Como se ele fosse dela. Como se a noiva fosse ela e eu, a intrusa.
O que mais me irritou é que ele nem tentou se desvencilhar do toque.
— A festa tá boa — ela continuou, sorrindo. — Mas achei melhor te procurar. Imaginei que estivesse aqui, sei o quanto você prefere lugares mais íntimos.
Vinícius não me olhou. Nem uma vez.
— Eu vou descer — falei, minha voz saiu mais estridente do que de costume, nervosa.
Nenhum dos dois respondeu. Karina tinha puxado Vinícius pra perto da janela, mostrando algo lá embaixo, rindo ao lado dele. Me senti humilhada como poucas vezes me senti antes.
Desci a escada sozinha. Cada degrau pesava mais que o anterior. Quando cheguei no salão, peguei uma taça de champanhe. Eu que não costumava beber, virei de uma só vez. Precisava anestesiar a dor.
A festa continuava. Gente bonita conversando com gente bonita. Todos olhando pra mim quando achavam que eu não estava vendo. Sussurrando. Especulando. Rindo.
Eu conseguia ouvir uma coisa ou outra.
Ela deve ter engravidado.
Coitada, acha que ele vai ficar com ela.
O que será que ela sabe sobre ele? Certeza que ele está sendo subornado.
— Essas festas são um saco, né?
Olhei pro lado. Um cara estava encostado na parede. Jovem, talvez minha idade, cabelo loiro – bagunçado, um terno preto desabotoado com uma camisa branca por baixo. Era muito bonito, do tipo que é carismático e charmoso sem fazer muito esforço.
— Desculpa, está falando comigo? — perguntei, desconfiada.
— Sim. Essas festas da alta sociedade — ele apontou com a taça pro salão. — Todo mundo fingindo que tá se divertindo e que se amam, quando na verdade não se suportam.
— Você não tá se divertindo?
— Você tá?
Dei um sorrisinho sem graça. Peguei outra taça quando o garçom passou.
— Cuidado, se tomar tão rápido pode bater de uma vez. — ele disse, se referindo a bebedeira. Mas não percebi julgamento na sua voz, só uma espécie de preocupação.
— Ótimo. É isso que eu quero.
Ele riu.
— Justo.
A gente ficou ali parado por uns segundos. Ele não tentou puxar assunto. Não me olhou de cima a baixo. Só ficou ali, bebendo champanhe, olhando pro salão com a mesma expressão de desconforto que eu provavelmente tinha.
— Por que você tá aqui? — perguntei. — Se odeia tanto assim.
Ele deu de ombros.
— Comida e bebida de graça? — brincou, levantando a taça.

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