Eu não parava de fazer merda. Era uma atrás da outra naquela noite.
Primeiro, fiquei de pau duro quando a minha noiva de mentira sentou no meu colo e quase fodi com ela ali mesmo. Depois, empurrei ela do meu colo quando Karina apareceu, como se Isabela fosse algo vergonhoso que eu precisasse esconder. E agora estava abandonando minha própria festa de noivado, com a noiva junto e a família dela comigo.
O motorista dirigia em silêncio. Isabela estava no banco de trás ao meu lado, com Thales entre nós dois. Ernesto e Juliano iam no carro de trás. Eu tinha insistido que fossem no mesmo carro que eu, mas o velho recusou, dizendo que "não queria atrapalhar". Atrapalhar o quê, eu não sabia. Bom, na verdade sabia sim, só não queria enxergar.
Thales segurava a mão de Isabela. Ela olhava pela janela, tensa, respiração ainda irregular. Meu filho não tirava os olhos dela, preocupado, e aquilo mexeu comigo de um jeito estranho.
Os dois tinham um vínculo verdadeiro, no meio de toda essa farsa.
— Pra onde vamos? — Isabela perguntou, sem olhar pra mim.
— Tem uma hamburgueria que o Thales gosta. Nada chique. Mas também não é fast food.
Ela assentiu, mas não falou mais nada.
O silêncio era desconfortável. Eu queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não sabia o quê. Desculpas pareciam insuficientes. Explicações pareciam patéticas.
Thales quebrou o silêncio:
— Pai, por que o vovô foi tão grosso com a Bela?
Isabela ficou ainda mais tensa. Eu busquei as palavras certas, mas não encontrei nenhuma que não fizesse meu filho perder o resto de respeito que ainda tinha pelo avô.
— Seu avô é... complicado.
— Ele é mau — Thales disse, direto.
— Thales…
— É verdade. Ele olhou pra Bela do mesmo jeito que olha pra você e pra mim.
Isabela puxou a mão dele com mais força. Não disse nada, mas o gesto falou por ela.
A hamburgueria era pequena, meio vazia pra um sábado à noite. Cheiro de carne grelhada e batata frita. Música alta, mesas de fórmica vermelha dessas que se não tomar cuidado, mancham a camisa branca.
Ernesto ficou radiante quando viu o lugar.
— Agora sim! Isso que é comida de gente! — ele disse, batendo nas minhas costas com uma familiaridade e uma força entusiasmada que me deixou desconfortável.
Não me senti assim por achar que Ernesto fazia por mal. Só porque ninguém nunca tinha feito aquilo comigo. Meu pai jamais encostaria em mim daquele jeito. Carinhoso. Despreocupado.
Sentamos numa mesa grande. Thales grudado em Isabela. Ernesto do outro lado, já pedindo cerveja antes mesmo de olhar o cardápio. Juliano ao lado dele, mexendo no celular. Eu fiquei na ponta, mais deslocado que todo mundo.
— Vinícius, meu filho, você bebe cerveja ou é desses que só toma vinho francês? — Ernesto perguntou, rindo.
— Cerveja tá ótimo.
— Ótimo! Juliano, para de ficar nesse telefone e ajuda a gente aqui!
A conversa fluía fácil entre eles. Ernesto contava histórias da hamburgueria dele, reclamava dos concorrentes, fazia piadas ruins que arrancavam risadas de Thales. Juliano rebatia com sarcasmo, Isabela sorria de canto, ainda meio chateada mas relaxando aos poucos.
Eu só observava.
Era estranho. Muito estranho.
Aquelas pessoas não eram da minha classe social. Não frequentavam os mesmos lugares que eu. Não usavam as mesmas roupas. Não falavam da mesma forma.
Mas era melhor do que a companhia de qualquer uma das pessoas do meu mundo.
— Então por que não contratou ela como designer?
Olhei pro copo de cerveja, pensando no que dizer. Resolvi que um pouco de verdade não faria mal nenhum.
— Porque eu estava desesperado — admiti. — Esse menino aqui — apontei pro meu filho — pode parecer um doce de criança, mas sozinho botou pra correr onze babás em menos de seis meses.
Ernesto arregalou os olhos.
— Onze?
— Onze — confirmei. — Uma durou três dias. Outra saiu no meio do expediente e deixou o Thales trancado no quarto.
Thales deu de ombros, orgulhoso.
— Elas eram chatas.
— Elas eram profissionais qualificadas que você aterrorizou — rebati.
— Mesma coisa.
Juliano riu. Isabela beliscou o braço do Thales, reprovando, mas estava tentando segurar o sorriso.
— Enfim — continuei —, quando a Isabela apareceu no meu escritório, eu já estava no desespero. Tinha uma festa naquela noite, não tinha com quem deixar o Thales, e aquela mulher estava ali, na minha frente. Parecia que tinha caído do céu, pronta pra me salvar.
Isabela ajeitou os óculos, visivelmente nervosa.
Ernesto não notou. Estava vidrado na história.
— E você achou que ela daria conta do Thales?
— Sinceramente? Não — respondi. — Achei que ela ia durar dois dias no máximo. Mas eu não tinha mais opções. Então ofereci a vaga, ela aceitou, e…
Olhei pra Isabela. Ela estava tensa, esperando o resto.
— E no fim das contas, não me arrependo. Sei que ela merece o cargo de designer. O trabalho dela é excelente, melhor que metade do departamento criativo da Lotus. Mas vê-la se conectando com o meu filho... — pausei, procurando as palavras certas — foi isso que realmente me fez me apaixonar por ela.
Seu Ernesto não poderia estar mais satisfeito. Abriu um sorrisão pra mim e eu respirei aliviado.
Não me atrevi a olhar pra Isabela, não tive coragem.
Os hambúrgueres chegaram. Thales atacou o dele como se estivesse morrendo de fome. Ernesto fez o mesmo. Juliano tirou foto antes de comer. Era um idiota mesmo.
Quem ele achava que era? Uma blogueira?
Isabela mexia no dela, empurrando de um lado pro outro.
— Não tá com fome? — perguntei, baixo, só pra ela ouvir.
— Não muito.
— Por causa do meu pai?

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