Entrar Via

A Babá "Feia" e o CEO romance Capítulo 67

A cozinha da mansão de noite passava uma sensação de solidão ainda maior. O silêncio; a imensidão.

Era difícil de entender como alguém poderia ser feliz assim. Mesmo com toda essa riqueza e luxo, o lugar era impessoal e frio.

Inês estava do meu lado, os dois cotovelos apoiados na bancada, a xícara de chá pela metade na frente dela. Thales tinha demorado pra dormir, estava agitado, falando sem parar sobre One Piece, e dos mergulhos que tinha dado na piscina mais cedo, mas acabou cedendo. Agora era só silêncio lá em cima.

E eu, irracionalmente, ficava de olho na porta.

— Não se preocupa — Inês disse, de repente, com aquela calma dela que parecia vir de outro mundo. — Ele deve estar chegando logo.

Endireitei os óculos, enquanto sentia meu rosto esquentar.

Como ela sabia? Eu não tinha tocado no nome dele uma única vez e nem estava olhando pra porta tanto assim. Tá, eu estava olhando pra porta toda hora, mas ela não tinha como saber que estava ansiosa pela volta de Vinícius.

— Não tô preocupada. — respondi, dando de ombros.

Inês me olhou por cima da xícara com uma expressão que dizia claramente que ela não havia acreditado em nada.

Assenti a cabeça com um gesto vago pra encerrar o assunto. Ela deixou passar.

— Eu trabalho pra essa família desde que Vinícius tinha meses de vida — ela disse, sem pressa, passando a ponta dos dedos na borda da xícara. — Então pode me perguntar qualquer coisa.

Fiquei por alguns momentos pensando no quanto eu queria saber. Se era saudável saber. Afinal de contas, era só um contrato e tudo tinha um prazo final, ainda que Inês não soubesse disso.

Mas eu não podia negar minha curiosidade. Menti pra mim mesma, me convencendo de que deveria saber mais sobre ele. Por motivos profissionais, claro. Nada além disso.

— Como ele era? — perguntei. — Quando era pequeno.

Inês sorriu. Era um sorriso diferente, mais suave do que o de costume. Cheio de ternura.

— Ele era... — Ela apoiou o queixo na mão. — Vinícius era inteligente. Quieto demais pra uma criança. Mas tinha uma leveza que… sumiu. — Ela franziu o cenho, como se a palavra não fosse exata. — Ou foi tirada.

— Como assim, tirada?

Ela levantou a sobrancelha.

Inês pôs a xícara na bancada e começou a gesticular com as duas mãos.

— Eduardo fez um ótimo trabalho em moldar Vinícius pra ser uma fortaleza. Dizia que um homem não podia crescer grudado na barra da saia da mãe. — Ela disse num tom controlado, mas dava pra perceber que Inês não concordava com isso. — Margô tentava. Era afetuosa, do jeito que conseguia. Mas toda vez que ela se aproximava demais, Eduardo ficava bravo. Chamava de fraqueza.

— E Vinícius?

— Primeiro foi pro colégio interno. Depois, quando voltou, ficou isolado aqui dentro. — ela fez um gesto circular que parecia abranger a mansão inteira. — Sem amigos. Sem afeto. Só tinha cobrança.

Fiquei olhando pro chão.

Não era justo o que eu sentia quando ela me contava isso. Uma espécie de nó na garganta, um frio no estômago. Como se essa informação mudasse alguma coisa.

Como se um CEO gostosão, rico e com trauma de infância fosse algo sobre o qual eu precisava ter sentimentos. Ele ainda era elitista. Ainda me olhava como se eu fosse um estorvo ou algo que o tirava do sério.

Não podia cair nessa armadilha. Eu sabia como funcionava: você descobre que o cara teve uma infância difícil e de repente tudo o que ele faz parece explicado, perdoado.

“Coitadinho! Pobre homem rico. Não teve amor dos pais enquanto crescia. Por isso, em alguns momentos parece ser gentil comigo e nos seguintes, me descarta.”

Ia ser idiota da minha parte. E eu não tinha direito a ser ingênua, porque já era feia. Um sinal de fraqueza e eu seria engolida por ele. Pelo seu egoísmo.

Ele não tinha dezenas de cláusulas naquele contrato? Pois eu iria criar as minhas.

Regra número 1:

Não ter pena do CEO gostosão.

— Isabela?

Levantei os olhos.

— Eu sei que deve existir algum tipo de acordo entre vocês dois.

Senti meu coração quase sair pela boca.

Ela sabia.

Claro que ela sabia.

“Isabela, caia na real! Olha pra você… “

Inês me olhava com um cuidado enorme.

— Não precisa me confirmar nada — ela continuou, levantando uma mão. — Mas eu desejo muito, de verdade, que se torne real. — Ela pausou. — Ele precisa de alguém como você. Alguém que seja capaz de amar sem usar máscara.

Abri a boca pra falar alguma coisa. Qualquer coisa que pudesse justificar que eu não estava vivendo uma farsa… ou então dizer o contrário: que alguém como ele jamais aceitaria o amor de alguém como eu.

A porta da cozinha abriu.

---

Inês se levantou devagar, sem pressa, como se tivesse previsto a chegada de Vinícius. Deu um beijo na minha cabeça, passou a mão no ombro de Vinícius quando cruzou por ele e saiu da cozinha sem dizer nada.

Antes de virar o corredor, me lançou um sorriso.

O sorriso cúmplice de Inês, junto da presença de Vinícius fez eu me sentir vulnerável e isso era perigoso.

Fiquei sozinha com ele na cozinha.

Vinícius estava com a gravata afrouxada. A camisa com o primeiro botão aberto. Parecia cansado de um jeito que ia além de uma noite mal dormida, era o tipo de cansaço que se acumula por anos.

Ficou um segundo parado, me olhando. Eu o olhei de volta.

Nenhum dos dois falou nada.

Ele foi até a pia, pegou um copo, encheu de água. Ficou com o copo na mão sem beber. Eu fiquei sentada na banqueta me perguntando por que não tinha ido dormir antes dele chegar.

O silêncio pesava, me sufocava.

O nosso preço é apenas 1/4 do de outros fornecedores

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá "Feia" e o CEO