Pra variar estávamos em silêncio.
E claro que não era um silêncio daqueles em que você fica confortável, com alguém que te conhece bem e as palavras são dispensáveis.
Era o pior tipo de silêncio. Tão constrangedor que eu cogitei pular para fora do carro em movimento.
Por que eu tinha me oferecido para vir com ele? Onde eu estava com a cabeça?
Fiz uma nota mental de reclamar com Inês. Ela tinha dado mais do que um empurrão — ela tinha me arremessado no colo dele.
Vinícius dirigia com as duas mãos no volante, o olhar fixo na rua. Mandíbula fechada.
Aquela expressão padrão de CEO estressado. Dava pra ver a veia do pescoço quase saltando.
A minha janela estava levemente aberta, e o vento entrava na medida certa para não me descabelar — não que isso fizesse muita diferença, porque ele estava indomável como sempre. Tanto que desisti de fazer um penteado melhor e apenas prendi em um rabo de cavalo.
Mas eu não estava preocupada com o meu cabelo, e nem estava com calor. Abri a janela para não sentir o cheiro do perfume dele. Não adiantava muito. O perfume estava por toda parte.
Senti minha pele arrepiar ao lembrar do calor do colo dele. De como estava duro contra a minha bunda.
Chega! Não pensa nisso, Bela.
Eu olhava para o meu colo.
Ajustei os óculos três vezes, sem precisar.
Depois de o décimo semáforo ficar verde e a gente não ter trocado uma só palavra, resolvi que ia enlouquecer se continuasse assim.
— Já combinei com Inês de olhar o Thales hoje — falei, a voz um pouco aguda de nervoso. — Ele tem futebol depois da escola.
Vinícius assentiu, sem tirar os olhos da rua.
— A gente volta rápido. Não deve levar tanto tempo pra resolver isso.
Isso.
Eu olhei pra ele de lado.
Isso…
Como se o que estava prestes a acontecer fosse algo comum. Uma reunião chata. Uma ligação inconveniente. Não trezentas pessoas com conta a pagar no fim do mês, com filho pra criar, com aluguel que em breve iria começar a atrasar.
E o pior é que eu já conhecia esse Vinícius. Já tinha visto esse personagem entrar em cena antes. Era o que acontecia quando as coisas ficavam difíceis demais, quando algum momento de vulnerabilidade o jogava pra fora do controle que ele tanto prezava. Ele mostrava um segundo de humanidade, e logo em seguida vestia a armadura de volta.
Virava a versão fria, calculista, que reduzia tudo a cronograma e eficiência.
— Não existe mesmo nada que possa fazer pra evitar isso?
Ele respirou fundo pelo nariz.
A mandíbula que já estava travada ficou mais travada ainda. Os dedos que já seguravam o volante com firmeza apertaram mais um pouco. Um músculo do lado do maxilar se contraiu.
— Você acha que eu quero fazer isso? — A voz saiu baixa, mas percebi que estava irritado. — Que me dá alguma alegria mandar trezentas pessoas embora?
— Eu sei que não.
Ele não respondeu. Resolvi ficar calada.
A cidade passou pela janela em silêncio o resto do caminho.
*
A filial da Lotus era maior do que eu esperava.
Uma fachada larga, vidro e concreto cinza claro, com o logo da marca em dourado na entrada. Por dentro, era um misto de fábrica e loja conceito: corredores com linha de produção de um lado, showroom com produtos expostos do outro, tudo muito limpo, muito organizado, com aquele cheiro característico de cosméticos.
Tinha gente por toda parte. Mulheres de jaleco, funcionários com prancheta, pessoal da produção circulando entre as bancadas.
Quando a gente entrou, o burburinho começou.
Eu sei reconhecer esse som. Aprendi cedo. É aquele murmúrio de quem viu alguma coisa que destoa e precisa comentar com alguém. Endireitei os óculos por instinto e preparei o estômago para o que viria depois.
Mas não veio o que eu esperava.
Uma das mulheres de jaleco me olhou, e eu me preparei para o pior. Mas ela sorriu. Não um sorriso educado. Um sorriso de verdade, como se estivesse realmente feliz em me ver.
Outra acenou discretamente.
Eu olhei em volta, confusa. Eram mulheres comuns. Rostos comuns. Ninguém que você veria num anúncio da Lotus. Pessoas reais, como eu. Nada a ver com o mundo de Vinícius.
Imaginei que tinham me reconhecido através das fotos do noivado. E gostavam de mim.
Durou uns dez segundos, esse quentinho no coração.
Porque quando Vinícius se aproximou de mim pelo corredor, o clima mudou. A mulher do jaleco desviou o olhar. A outra que tinha acenado, endireitou a postura. Alguém tocou no braço de um colega e cochichou alguma coisa. A tensão se instalou rápido.
Elas tinham medo dele.
Não era difícil de entender por quê. Vinícius andava com a cara fechada, irritado. O terno, a postura, o jeito de olhar que não parecia nada gentil e amigável.
Essas pessoas mal sabiam o quanto deveriam temê-lo agora. Não era só a ameaça da presença dele. O futuro delas estava prestes a mudar.

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