Minhas mãos suavam e, de repente, eu não era o CEO da Lotus. Era só um garotinho assustado, querendo que alguém o pegasse pela mão e dissesse que tudo ficaria bem. Só que ninguém nunca tinha feito isso por mim — e não seria agora.
O palanque não era muito alto. Na verdade, era só uma plataforma improvisada para falar com os funcionários. Algo padronizado em todas as nossas filiais. Exigência do meu pai.
Fiquei parado ali em cima por alguns momentos, sem saber o que fazer. Tentei focar em algum ponto fixo no horizonte, evitando encarar os olhos das pessoas. Talvez assim fosse mais fácil.
A fábrica estava tomada pelos cochichos dos funcionários. As máquinas estavam desligadas por causa da reunião, e o silêncio mecânico deixava tudo ainda mais tenso.
Fiz a besteira de erguer o olhar e vi mais de trezentos olhos voltados pra mim. Essa situação não era nova. Eu já tinha vivido isso antes.
Tinha nove anos quando meu pai fez exatamente isso. Parou em uma filial em Ribeirão Preto, subiu em um palanque como este e anunciou o fechamento da fábrica. Eu estava ao lado dele, desconfortável no meu terno, pequeno demais pra entender a dimensão do que viria em seguida. Entendi quando uma mulher começou a chorar no pátio da fábrica. Um idoso abaixou a cabeça, derrotado. Uma moça tampou a boca com a mão.
Depois de fazer centenas de pessoas chorarem, meu pai desceu do palanque tranquilo. Pegou minha mão — não pra me confortar, mas pra me tirar de lá.
Eu estava petrificado com o sofrimento daquelas pessoas. Algumas imploravam pro meu pai, diziam que não podiam perder o emprego. Ele ignorou todas. Fingiu que estava ouvindo os lamentos, mas eu o conhecia bem demais. A cabeça dele estava em qualquer lugar, menos ali. A preocupação dele não era com aquelas pessoas.
Tudo o quê importava era dinheiro e poder.
Quando chegamos ao estacionamento, ele disse que alguns sacrifícios eram necessários e que, como presidente da empresa, eu teria que ser homem e encarar de frente as consequências de falhar em administrar a empresa como um todo.
— Se levante mais forte depois disso, Vinícius. Aprenda com os erros. — disse, como se tivesse acabado de me dar um conselho valioso.
Naquele dia, prometi que não faria o mesmo. Que eu nunca faria centenas de pessoas perderem o seu ganha pão só para que pudesse tirar uma lição disso. Passei mais de vinte anos me preparando e acreditando que não estaria nessa posição.
Afrouxei a gravata. O nó estava apertado. Sempre ficava assim quando eu precisava dizer algo que não queria.
Sem pensar duas vezes, procurei Isabela na multidão. Não foi difícil encontrá-la, porque usava uma blusa laranja com flores — algo chamativo a muitos metros de distância. Estava perto de uma bancada, ao lado da janela, conversando com três funcionárias.
Ela sorria de um jeito tão leve e natural. Com uma felicidade que eu tinha aprendido a reconhecer só no riso dela — algo verdadeiro, tão diferente dos sorrisos ensaiados do meu mundo.
Não pude evitar pensar que ela era a minha âncora na multidão. A força que me faltava.
O que estava acontecendo comigo? Que besteira era essa?
Ignorei o pensamento. Não era a hora.
As palavras dela na sala de reuniões continuavam na minha cabeça. “Deve ter outra maneira.” Ela falava com convicção. E eu queria tanto acreditar nisso.
Márcio tinha dado a ideia de colocá-la como o rosto da nova campanha. Parecia tão absurdo na hora, mas, ao vê-la ali, tão naturalmente se comunicando com aquelas mulheres, passando tanta verdade e… beleza.
Beleza verdadeira.
Porque, quando ela sorria assim, quando se sentia à vontade na própria pele, ela era linda.
Afastei os pensamentos. Enterrei cada um deles no fundo da minha alma, porque ninguém jamais poderia saber disso. Imagina se o Márcio soubesse que eu pensei algo assim? Minha paz estaria arruinada.
Chega de enrolar. Era melhor acabar logo com isso.
Pedi silêncio e o barulho foi diminuindo até parar. Era agora ou nunca.
Abri a boca pra dar logo as más notícias, mas não consegui verbalizar nada, porque, antes que eu pudesse começar, vi uma mulher na primeira fila. Devia ter uns sessenta anos. O cabelo era grisalho, a expressão, inocente.
Baixei o olhar para ler o nome bordado no uniforme dela: Cida.
O jeito que ela me olhava me partiu o coração. Havia expectativa — como se tivesse certeza de que eu estava naquele palanque para trazer boas notícias.
Eu não consegui falar o que tinha vindo dizer. No lugar, comecei a improvisar.
— Bom dia a todos. — Fiz todo o esforço do mundo, e minha voz saiu firme. — Vim pessoalmente porque vocês merecem isso.
Percebi alguns olhares assustados. Continuei:
— Imagino que já ouviram falar sobre o incêndio na nossa matriz.
Começaram os murmúrios. Indignação. Comentários mais altos.
— Peço a todos que se acalmem. Estamos investigando e vamos descobrir o que aconteceu. O incêndio não muda os planos da empresa com relação a vocês. Conto com o trabalho de cada um. A próxima coleção depende disso.
Pronto. Eu tinha mudado completamente o rumo da conversa. Na verdade, acabei fazendo o exato oposto do meu objetivo.
Um homem, no fundo, gritou:
— Pode contar com a gente, doutor Vinícius! A gente dá o sangue pela Lotus!
Alguns aplaudiram, empolgados. E Cida sorriu.
Foda-se o meu pai. Pelo menos a Cida estava feliz.
Desci do palanque e percebi que Isabela me olhava de um jeito que eu não sabia ao certo o que significava. Até que ela abriu um sorriso pra mim — sincero, orgulhoso.
Foi o suficiente. Senti que tudo ficaria bem.
*
Jonas, nosso gerente da filial, parecia cansado.
Espalhou os relatórios na mesa da sala de reuniões. As mãos não estavam totalmente firmes. Respondia ao que eu perguntava depois de pequenas pausas. Uma espécie de travamento mental.
Fiquei desconfiado, essa insegurança podia significar culpa. Ele parecia estar escondendo algo de mim.
— Quero o relatório completo de entradas e saídas dos últimos doze meses — falei. — Balancete, DRE, fluxo de caixa e orçamento por centro de custo. Com variação mês a mês. Principalmente dos últimos quatro.
Ele anotou sem perguntar nada.
— Também quero os contratos dos fornecedores. E saber se houve renegociação sem autorização da matriz.
— Claro que não houve, doutor. Nós nunc—
— Faça o que te pedi.

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