O garçom não mentiu. Parecia que o mundo ia acabar em chuva. Foi difícil até de sair do restaurante. Com um trânsito caótico, conseguimos chegar na filial e Jonas reuniu a documentação que Vinicius tinha exigido dele.
Algo não parecia certo no comportamento daquele homem. Ele estava nervoso, muito mesmo. Tá certo que o doutor Vinicius inspirava uma certa crise de ansiedade nas pessoas. Ele chegava com aquela cara fechada, com o poder de um CEO cruel de mandar qualquer um embora a qualquer momento, isso por si só já deveria ser motivo suficiente pra justificar o comportamento do gerente. Mas não era só isso. Eu não era especialista em comportamento humano, longe disso, mas podia apostar que tinha algo mais, algo que ele não queria que Vinicius descobrisse ao cruzar os dados da empresa.
A pasta que ele entregou pro Vinicius era enorme. Ele levaria um tempo até analisar tudo e chegar a alguma conclusão, mas o suor na testa de Jonas já era um sinal claro de que meu noivo de mentira iria encontrar as razões do rombo financeiro da filial.
Enquanto Vinicius estava fechado na sala de reuniões analisando os relatórios, resolvi passear pela fábrica.
A maneira gentil como as funcionárias me tratavam tinha me feito me sentir protegida ali, querida até. Era curioso.
Enquanto eu passava pelos corredores, a telefonista — uma mulher comum, porém belíssima, de cabelos cacheados e pele dourada — veio até mim.
— Isabela, nem acredito que você veio aqui. — a moça puxou papo, visivelmente emocionada.
— Qual o seu nome? — perguntei.
— Marisa.
— Prazer, Marisa. Você é muito linda.
O elogio fez com que Marisa ajeitasse até a postura, ficando com os ombros mais erguidos, orgulhosa e cheia de si.
— Obrigada! Você também é… — ela parecia não conseguir encontrar as palavras — é especial. Diferente. — ela se apressou, como se precisasse consertar a frase — gosto do seu estilo.
— Não precisa ficar se justificando, tá tudo bem. — respondi com um sorriso tranquilo, para que ela acreditasse mesmo que estava tudo bem.
Um curto silêncio se seguiu. Eu senti que Marisa queria me perguntar mais coisas, mas não sabia como começar. Deduzi que a maior curiosidade não seria por nada relacionado à minha vida pessoal, nem muito menos à minha profissão de verdade. Provavelmente era algo relacionado com o fato de uma feia como eu ser a noiva de um CEO tão gostosão.
— Marisa, não precisa ter vergonha de mim. Quer me perguntar alguma coisa, não é? — a encorajei.
Marisa chegou mais perto de mim, como se tivesse medo que alguém fosse ouvir o que fosse dizer em seguida, muito embora estivéssemos sozinhas naquele momento, com o restante dos funcionários em suas salas ou no chão de fábrica, trabalhando.
— O doutor Vinicius é sério assim com você também? Desculpa. Não quero parecer abusada. Mas é que as meninas aqui da fábrica, cada uma tem um palpite de como ele é na vida pessoal.
— Qual o seu palpite? — perguntei, achando graça.
— Ah, eu imagino ele todo carinhoso, com um coração gigante. Totalmente diferente do que ele é aqui, sabe? É uma fachada, esse lance de CEO mal-humorado. É pra manter a pose. — ela disse tudo com uma expressão de sonhadora que me deu pena de desmentir. Não achei que iria pegar bem dizer a verdade.
Uma parte era até verdade. Se procurasse bastante, até dava pra enxergar carinho e humanidade no Vinicius, mas a fantasia dela estava mais parecendo algum livro de romance desses que enganam as leitoras com homens idealizados. Pensei um pouco no que responder.
— Ele é diferente sim. Mais humano… — respondi tentando encontrar uma média entre a verdade e o admissível a ser revelado sem destruir a ilusão.
Marisa sorriu satisfeita. Ela começou a mexer no cabelo, enrolando a ponta dos cachos nos dedos, brincando com eles enquanto esticava o pescoço pra porta da sala de reuniões.
— O Jonas ainda tá lá dentro? — ela me perguntou fazendo careta.

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